holocaust_br-livroEles chegavam de trem, no vagão de loucos, mas muitos nem loucos eram. Eles iam para o Hospital Colônia: h de hospital, h de hospício, h de holocausto, h de história de abandonos em massa e de sobreviventes. Mas, no fundo, tudo não passava de um depósito, com cara de campo de concentração para isolar e silenciar andarilhos que andam à volta deles mesmos. Dali, durante oito décadas, as únicas saídas possíveis eram as covas rasas onde negros, loucos e suicidas eram enterrados como indigentes, empilhados aos montes, sem caixão, num cemitério já acoplado ao hospital. Quando a terra já não dava conta de assimilar os corpos e o cheiro empesteava tudo à volta atrapalhando os vizinhos, peças anatômicas de cadáveres eram vendidos para as faculdades de medicina de universidades brasileiras. Antes disso, além dos eletrochoques e dos comprimidos, eram explorados pelas irmãs vicentinas desde a década de 30 na limpeza das alas e dos pátios, ou pelo chefe de obra como pedreiros em troca de um maço de cigarro. Mais de sessenta mil mortos num único Hospital Colônia não foi culpa só dos médicos e das famílias que os esqueciam, foi também do Estado e da sociedade. Os “porões da loucura” foram institucionalizados na mesma época dos porões da tortura e da ditadura. E essa não é nem de longe mera coincidência. Aliás, o discurso da periculosidade ainda é usado como justificativa para uma “higienização social”.

Daniela Arbex (autora do livro, produtora, roteirista e uma das diretoras do filme) documenta a barbárie e a desumanidade praticadas, durante a maior parte do século XX, no maior hospício do Brasil, em Barbacena. Os relatos são chocantes à medida que percebemos que tudo aquilo que Michel Foucault falava na sua História da loucura acontecia até bem pouco tempo há poucos quilômetros de distância. Daniela Arbex também incorpora no seu documentário trechos do filme Em nome da razão (de Helvécio Ratton) ao retratar um genocídio cometido, sistematicamente, pelo Estado brasileiro, com a conivência de médicos, funcionários e da população. De todas as pessoas aprisionadas entre os muros da Colônia, cerca de setenta por cento não tinham diagnóstico de doença mental. Quase todos foram internados à força. Mais de uma centena eram crianças. Eram epiléticos, alcoólatras, homossexuais, prostitutas, gente que se rebelava ou incomodava de alguma forma: meninas grávidas violentadas por seus patrões, esposas confinadas pelo próprio marido, filhas de fazendeiros que tiveram uma relação sexual antes do casamento – seres humanos cuja condição humana foi roubada num tempo não muito longínquo em que era prática comum a desumanização institucionalizada. Até que, em 1979, Franco Basaglia (médico italiano pioneiro do movimento anti-psiquiátrico) visitou o Colônia e nunca havia visto tragédia como aquela.

Em cartaz na Mostra: Retratos Falados.

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