Filmes de ficção científica sempre desconfiaram do bom senso humano, uma vez que o tema normalmente abordado é a guerra ou o colapso de uma estrutura terrena. Percebendo que o avanço da tecnologia, pode ser argumento para o estabelecimento da paz entre povos de diferentes planetas, a estação Alpha foi criada, e Valerian (Dane Dehaan) e Laureline (Cara Delevingne) são os agentes federais responsáveis pelo selo galáctico dessa paz. Com alienígenas que buscam arte e beleza, com valores sobre a natureza e a união dos povos, o tema da guerra ganha novamente o espaço sideral, em um sci-fi divertido, com imagens belíssimas, personagens de grande potencial, voltado claramente para o público jovem, mas um filme que não parece dar conta do recado proposto, durante sua evolução.

É gostoso ouvir “Space Oddity” nos primeiros segundos do filme, e toda a atenção se volta curiosa para saber se o filme está à altura da música de David Bowie. Para aqueles que forem ao cinema buscando teorias complexas sobre o espaço e a ciência, podem esquecer. Valerian e a Cidade dos Mil Planetas aposta em efeitos visuais que dão ao filme uma beleza notável, apresenta filosofias de vida de seres alienígenas, apontando que a simplicidade na trama foi uma grande aposta.

Da mesma forma, o filme deixa a sensação de não conseguir dar conta de todos os elementos, onde o trabalho de criação de personagens e de um universo fictício complexo, com ideias fantásticas, deixa a desejar por não explorar bem o seu conteúdo,  não aproveitando todos os seus personagens, ou quase nenhum. Ônibus voadores, lulas gigantes que se alimentam da memória, criaturas que “engolem’’ pérolas, planetas com uma cultura rica e vasta e viagens dimensionais, poderiam ser as chaves desse filme. Ao invés disso, trabalhou-se muito mais as longas cenas de ação em torno de Laureline e Valerian, onde outros personagens são rapidamente descartados, para dar lugar à falta de carisma do casal principal. Bob (Alain Chabat), um pirata de personalidade forte, tem uma breve passagem pelo filme, mostrando como que alguns personagens se tornaram descartáveis. A aparição de Clive Owen como General Arün Flitt, dentre outras coisas, serviu para agitar o ritmo das atuações, ainda mais com Cara Delevigne e Dane Dehaan, que parecem só terem servido como atrativo para o público adolescente. Você quase chega a se apegar aos personagens secundários, mas é tudo tão corrido, no meio de armadilhas atrás de armadilhas, que tudo parece um argumento para ressaltar Valerian e Laureline.

O filme também segue com personagens muito bem pensados. Os Pearls’ habitantes do extinto planeta Mül, são as criaturas mais admiráveis de toda a trama. Obrigados a viver clandestinamente, usando sua inteligência para tentar resgatar a cultura de seu povo, constroem cenas belíssimas, onde é cativante ver seres tão bonitos e inteligentes, dotados de uma cultura cheia de valores pacíficos e em prol da natureza, seguindo  o caminho de sua volta para casa. Os Shingouz’, uma espécie de três alienígenas, mercenários cômicos de informações, conseguem entreter e cativar o público, justamente por serem fofos e irritantes. Rihanna como Bubble, talvez seja a personagem mais maravilhosa do filme, em termos de atuação. Bubble é cativante, bonita, dança de forma surpreendente. Dividindo a atuação com Emilie Livingston, uma dançarina canadense, Rihanna consegue conquistar o público, mostrando toda a sedução, charme e sensibilidade artística de seu personagem. Bubble é simplesmente maravilhosa. Em sua cena de dança, não só o personagem principal é seduzido, como todo o público é conquistado, nos fazendo querer que a dupla de heróis principais ganhe um novo membro.

Luc Besson conseguiu nos entregar belíssimas imagens, um filme divertido, muito mais de ação e aventura, voltado para o público jovem. É uma pena que a belíssima filosofia e excelentes personagens tenham sido tão pouco explorados, transformando o filme em uma confusão de missões de ação, sem dar o devido valor a toda a criação artística que envolve sua filosofia.

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