Até quando continuaremos a nos calar perante os diferentes casos de pedofilia que se repetem diariamente? Achar que algumas instituições estão isentas de responsabilidade pura e simplesmente por entender que a tradição moral e ética é algo impeditivo e enfatizar situações de instituições onde não há nenhum sinal de pedofilia? Entender que crianças sempre serão vítimas dos casos, não importando em que circunstância ou idade elas se encontram? Acreditar que em mais de 70% dos casos registrados os agressores são membros da própria casa/família? Todas essas perguntas ficaram latentes em minha mente enquanto assistia à peça “Silêncio das Sombras”.

Estar no momento atual de nosso país fazendo arte e, sobretudo, uma arte questionadora, é um ato político e é, de fato, trazer à tona a resistência e os posicionamentos que devemos ter diante dos problemas que nos dizem respeito enquanto um humano que vive em comunidade. Como público, sinto-me privilegiado por estar diante de obras que me fazem (re)pensar e que, de algum modo, me deixam inquieto a ponto de mexer no meu lugar de conforto. Como ser social, sinto-me culpado por estar em permanente silêncio diante de tantos e grandes problemas reais e cruéis. Essas questões se fizeram presentes ao ver o lindo espetáculo dirigido por Geuder Martins.

Tárlia Laranjeira encara a responsabilidade – e que responsabilidade! – de estar sozinha em um palco relatando alguns casos de pedofilia. Apesar de apresentadas de forma sutil e lúdica, é perturbador ver relatos de agressões sob a perspectiva dos agredidos, a partir de múltiplas narrativas. O palco se torna pequeno diante da imensidão complexa do tema e a atriz, com todo seu trabalho corporal e cênico, toma para si cada espaço inflacionado e os preenche lindamente.

O cenário ajuda, e muito, a peça a criar toda sua narrativa, desde o momento que entramos no teatro e nos deparamos com uma caixa cênica no meio do palco até às passagens de histórias durante o espetáculo. Já a iluminação tem papel fundamental na proposta artística de utilizar diferentes narrativas. Trabalho excepcional de luz e cenografia.

Pedofilia se tornou um assunto vedado em nossa sociedade, gerando muitos silêncios dentro de um silêncio maior, que é o medo: medo da negação, medo do afrontamento, medo pelo desconhecimento, medo da não credibilidade. Junto aos milhares de casos registrados anualmente nas delegacias estão milhares de outros que não chegam a ser denunciados, fomentando ainda mais o tabu estabelecido. O título desta peça engloba tantos lugares não visitados, tantos porquês não respondidos, tantas escuridões que são mantidas por muitas pessoas que fazem questão de mantê-las. E para além do título, a peça acompanha com sentimento os embrulhos em que estão guardados tantos casos, tão frequentes, ao nosso redor.

Assistam à peça, em sua última semana, em cartaz na Sede das Cias, e depois me digam quais sensações foram despertadas diante de uma obra que diz a que veio. Digam se saíram como eu, com uma vontade enorme de chorar, mas ao mesmo tempo de mudar, mudar pelo menos o meu lugar confortável de assistir à vida.

 

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