Silêncio. O silenciar pela imagem, o silêncio da supressão de palavras, o silenciamento diante da história. O silêncio que entra em seu corpo, embaralha seus sentimentos e transforma o silêncio dado em silêncio sentido. O silenciar organizado em imagens, em gestos, em movimentos. O silenciamento de algo esquecido, de alguém esquecido, de histórias esquecidas. Palavras. Para que palavras?

Graciliano Ramos em 1938 escreve um livro sobre uma família em constante mudança para áreas menos castigadas pela seca. Histórias vividas são transpostas em histórias escritas.

Palavras muitas são usadas para, junto com o ar empoeirado e desalentado da seca, contar a dor e as perturbações que retirantes viviam em épocas de secagem nordestinas. Em 2016, a companhia Caravan Maschera – formada por Giorgia Goldoni e Leonardo Garcia Gonçalves – decide apreender o conteúdo dado por Graciliano e transformá-los em signos, em linguagens teatrais. “Vidas secas” surge para contar a história de retirantes nordestinos através do teatro de bonecos, teatro de máscara, artes plásticas e do audiovisual. Em meio a uma sociedade imagética, de forma inteligente a companhia suprimiu a palavra, tão já usada e explorada para esta temática, e deixou para o próprio público sentir e contextualizar a obra. Imagens. Só imagens?

A fim de não entrar em um embate imagens versus palavras, digo que sim: há palavras (raras) na peça. No entanto, elas soam muito mais como efeito sono plástico do que propriamente um recurso linguístico. Elas estão ali para poetizar ainda mais a narrativa. E há algo mais poético do que o silêncio? Mas não um silêncio qualquer. É um silêncio feito de sons. O som da violência. O som da pouca água existente. Do sino na caminhada dos retirantes. O som do riso, da tristeza, do afeto, do desespero. Muitos sons para muitos silêncios.

Giorgia e Leonardo dão vida a oito bonecos de maneira tão singela e, ao mesmo tempo, monumental, que por vezes me perguntei se não eram os bonecos que davam vida a Giorgia e Leonardo. É de uma cadência de movimentos e ritmos tão harmoniosa que nos faz ocasionalmente esquecer a tristeza que aqueles bonecos estão a retratar.

Entre cenas concretas e subjetivas, o público é provocado a emergir em seus sentimentos e sentir a obra a partir da sua memória cultural, seja ela de forma anacrônica ou histórica. Não à toa os bonecos e as máscaras utilizadas são de uma sensibilidade estética tão singular que muito da poética encontrada no espetáculo parte destes elementos.
Visto essa linguagem teatral híbrida de “Vidas Secas”, sai do teatro almejando um apelo: que consigamos, sociedade atual privilegiada por ver a história através de novos olhares, novas perspectivas, avançar, mas nunca esquecendo do passado. Que consigamos ter mais e mais obras plurais como “Vidas Secas”. Que possamos dar valor sim aos musicais “broadwaynianos”, mas que ao mesmo tempo admiremos as outras formas de fazer arte. Que o silêncio supere sim às vezes o dizer. Que tenhamos mais cultura popular em nossos palcos. Mais cultura. Mais.

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