Nesta quinta-feira, dia 7 – após rodar o circuito de festivais, onde foi bem recebido -, chega aos cinemas o longa metragem documental Corpo Delito, de Pedro Rocha, que aborda a questão do presidiário e sua imagem, e objetiva experimentar a criação de uma nova imagem. Para isso, o documentário cearense acompanha a rotina de Ivan, um homem que acabou de sair da cadeia, mas ainda não se conforma e se ressente porque, mesmo após conseguir a liberdade, ainda está preso a uma tornozeleira eletrônica.

Assim, a câmera do estreante Pedro Rocha segue a rotina de Ivan, que depois de passar oito anos em regime fechado, conseguiu o direito terminar sua pena no semiaberto. Com isso, o rapaz volta para casa e tenta voltar à sua vida, mas ainda tendo que conviver com todas as limitações causadas pelo acessório que rastreia todos os seus movimentos, tolhendo qualquer liberdade de ir e vir. Então, são mostrados o convívio com os familiares e os amigos e os encontros com a Justiça.

Desse modo, começa a ser montado um duro e infeliz perfil das famílias que vivem nas periferias brasileiras sem qualquer prospecto de evolução, embarreiradas pela desigualdade social. Isso ocasiona o fato de, mesmo sem saber qual foi o crime de Ivan, o espectador entende que, na realidade em que ele vivia, é mais fácil cair no erro em busca de uma vida mais “fácil”, o crime. Como ele diz no longa: “Ou é cadeia ou é cemitério, essa vida. Não tem outro destino, não”.

Além disso, a montagem do filme é também um dos pontos altos, fora o tema. O trabalho de Pedro Rocha foge do melodrama, do sensacionalismo, da vitimização, ou silêncios contemplativos, uma vez que a intenção não transformar os indivíduos da tela em heróis, mártires, nem pintá-los como vilões – é buscada a humanidade de cada um, a ideia é mostrá-los como eles são pessoas, apesar de tudo. Ou seja, tudo é feito com a fluidez da vida, afastando-se do maniqueísmo folhetinesco.

A narrativa é ágil, montando uma boa dinâmica entre a “prisão” de Ivan e a liberdade dos que o cercam – e esta construção também é evidenciada pelo modo como o diretor mostra suas personagens: os planos fechados são reservados para Ivan, que em seus encontros com a Justiça, é observado no molde plano/contra plano tradicional, e a vida livre do melhor amigo, Neto, é mostrada em planos abertos. Isso faz com que o espectador crie empatia pelas personagens, que, cada uma a seu modo, são carismáticas.

E, com todas as qualidades, se fosse necessário apontar um defeito da produção seria o subaproveito de outras personas que participam da vida de Ivan e de Neto – estas pessoas não recebem um olhar muito aprofundado, tornando-se unidimensionais, ao passo que, se elas fossem observadas mais de perto, seus pontos de vista, como pessoas que, de uma forma ou de outra, também têm de conviver com a tornozeleira eletrônica, poderiam enriquecer este retrato áspero, porém muito bem feito e oportuno do Brasil.

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