Você já foi à Bahia? E a Bahia narrada por Jorge Amado? Existem peculiares semelhanças entre os livros do autor clássico da literatura brasileira. Um dos grandes expoentes de suas narrativas é a obra Dona Flor e seus dois maridos que ganhou uma adaptação, e agora um remake. A história de como Dona Flor, casada pela segunda vez com o farmacêutico Doutor Teodoro, é visitada pelo fantasma do primeiro marido, Vadinho, conta com Juliana Paes, Leandro Hassum e Marcelo Faria no grande elenco, e promete ser o começo de uma série de revitalizações das histórias literárias brasileiras mais antigas.

A sedutora Dona Flor (Juliana Paes) é uma professora de culinária de Salvador. Ela é casada com Vadinho (Marcelo Faria), que morre em um bloco de carnaval certo dia. Apesar do amor que sentiu, ela acaba se casando pela segunda vez com Teodoro (Leandro Hassum), o farmacêutico. Flor sente muita falta da vida sexual que tinha com Vadinho e certo dia, ele volta em espírito para matar sua saudade. No entanto, Dona Flor fica dividida sobre o que fazer com os dois maridos, pois considera Vadinho uma tentação e traição, mesmo que não esteja presente fisicamente.

O novo longa da Downtown filmes abre com uma fotografia interessante. O carnaval que normalmente seria representado por cores vivas e planos dinâmicos, agora é representado por cores sem vivacidade e um ângulo inesperado da câmera faz o público perceber que há algo errado prestes a acontecer. Dito e feito, a cena de abertura apresenta a morte de Vadinho para a partir daí, por meio de flashbacks, contar sua história com Dona Flor. Os flashbacks se estendem por um tempo longo demais, mas revelam partes importantíssimas da trama, como por exemplo, o fato de Vadinho ter sido um marido abusivo, viciado em jogo e cheio de dívidas. No entanto, o que Dona Flor apreciava no homem e o que a fazia não o abandonar era o modo selvagem como a tomava por sua na cama (ou onde desse vontade).

É exatamente isso que falta no casamento de Flor com Doutor Teodoro. Ele tem tudo que faltava em Vadinho, é carinhoso, fiel, cuidadoso e faz de tudo para ver sua esposa feliz, mas ele não provoca o que Vadinho provocava ao estar com Dona Flor. Essa dinâmica de se complementarem é a motivação de grande parte das piadas do longa, que funcionam razoavelmente bem, e conseguem sim, fazer o público dar algumas risadas. Algo muito bem utilizado pelo diretor Pedro Vasconcelos, a fim de instigar ainda mais a comédia, é a trilha que começa e abruptamente termina, tal qual risos de fundo em uma série de comédia, reaparecendo nos momentos exatos para indicar as brincadeiras que virão a se desenrolar.

Entre o divertido e o enrolado, a trama se estende demais principalmente na história de Vadinho e na decisão relutante de Dona Flor, mas o que certamente ajuda a manter o ritmo da narrativa é a atuação do trio de atores globais. Juliana Paes, Marcelo Faria e Leandro Hassum revelam uma química surpreendente e o último, ainda mostra os primeiros traços de que pode fazer mais que comédia, com algumas cenas românticas e dramáticas em que dá o seu melhor para sair do papel do “marido bobão” ou do “farmacêutico envergonhado”.

Tem algumas coisas que Jorge Amado sempre inclui em suas obras: erótica, funerais e, é claro, Salvador, capital da Bahia. Dentro desse mesmo modelo, ele já construiu “A Morte e a morte de Quincas Berro D’água”, “Capitães da Areia” e é claro, um de seus maiores marcos foi “Dona Flor e seus dois maridos”. Muitas das falas originais do livro foram mantidas no remake, contudo é necessário se perguntar como um livro de 1966 se mantém engraçado na atualidade, e a resposta é esta nova versão do longa. Ele possui seus altos e baixos mas é divertido e certamente não apropriado para a família inteira, ou seja, mantém a espiritualidade de algo feito por Jorge Amado.

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