lovelaceLinda Lovelace talvez tenha sido a primeira diva do cinema pornográfico com o seu mega sucesso Garganta Profunda (Deep Throat, 1972). Como muitas mocinhas da considerada boa e tradicional família americana, desejava escapar dos excessos de restrições. Como muitas jovens, viu no casamento uma forma de se libertar. Não sabia, entretanto, que estava apenas trocando uma prisão por outra, um tanto pior.

Antes de se transformar em Linda Lovelace (Amanda Seyfried), Linda Boreman, 19 anos, morava com os pais numa pequena cidade da Florida. Até que conhece Chuck Traynor (Peter Sarsgaard). E casa-se com ele. Chuck começa por introduzi-la na indústria cinematográfica e daí é induzida a estrelar um filme pornô. Aproveitando-se da habilidade oral de Linda, que inspirou o nome de seu único filme pornô, Chuck (que devia a agiotas e usou-a para fazer dinheiro e pagar suas dívidas) passou também a prostituir e negociar a própria esposa – o que, para muitas mulheres, pode parecer o pior dos pesadelos. Assim a estrela do cinema vai do pornô ao gangbang com cinco homens negociado pelo marido, numa sugestiva cena de estupro coletivo. O que seria, na sua fantasia, uma história de sucesso, afinal estava fazendo um filme como qualquer outro, diz ela, transforma-se aos poucos. O filme mostra o lado glamoroso do tapete vermelho, o reconhecimento do público, as filas de cinema com letreiro luminoso. Mas, por trás disso, a vida de Linda é bem diferente, graças ao seu marido que age como cafetão.

Ao sair de uma cilada – a sua família ultraconservadora que não discute pornografia durante o jantar – e cair em outra, Linda Lovelace foi vista inclusive como símbolo da revolução sexual. Mas era preciso, mais do que nunca, revolucionar a sua própria vida e se livrar daquele sanguessuga explorador. Para isso, resolveu usar a sua garganta de forma mais proveitosa: soltou a voz e contou ao mundo a sua trajetória. O filme aqui se abre numa estrutura ambivalente, o que reflete um inteligente trabalho de roteirista e diretores: se uma visão externa podia sugerir uma mulher luxuriosa, no fundo revelava-se uma mulher sexualmente reprimida, muito devido à rígida criação de sua mãe (atuação excelente e irreconhecível de Sharon Stone) e, posteriormente, pelos frequentes abusos sofridos e induzidos pelo próprio marido.

Para além de boas atuações, o filme, ambientado nos anos 70, conta ainda com reconstituição de época, caracterização de personagens, trilha sonora e figurino notáveis. A dupla de documentaristas que dirige o filme, especializada em questões políticas e sexuais, mostra-se apurada. Apesar da estrutura aparentemente convencional, Andy Bellin também garante um bom roteiro. Mas o ponto-chave do filme é, de fato, a atuação de Amanda Seyfried, perfeitamente convincente no papel da mulher atormentada e vitimizada pelo marido. Lovelace – a personagem do filme – é uma mulher ambígua: de beleza discreta e aspecto ingênuo e frágil, fragilidade muito bem retratada pela atriz aliás, torna-se numa escritora, forte e decidida, libelo feminista (como surge nas cenas finais).

Baseado numa história real, Lovelace é um drama provavelmente sobre a atriz pornográfica mais famosa de todos os tempos. Por Linda Lovelace (a atriz, não a personagem) ser desconhecida por um público mais vasto ou ainda estigmatizada por muitos, talvez o papel desta cinebiografia, parcial e fictícia, como qualquer biografia, seja o de devolver-lhe um cariz mais humanizador.

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