cartaz_baixaO novo longa de Isabel Coixet é um relato sobre a luta do ser humano contra o entorno natural. A cineasta catalã compôs um retrato de mulher (de mulheres, porque são duas) com o homem ao fundo. E uma bela história em que se alternam o romântico e o mítico, o descobrimento universal e o íntimo. A ação começa de forma épica, como as grandes aventuras, com barcos de época e trenós. Mas, à medida que avança, o filme começa a mostrar onde reside sua grandeza. Até que só restam, frente a frente, uma inuíte e uma senhora da alta sociedade de Boston. Com a brutal tormenta que se anuncia lá fora, elas – duas mulheres, duas civilizações, duas visões de mundo – vivem na noite polar. Este embate reflete, de alguma forma, a fragilidade da Terra frente à prepotência humana. A luz cênica busca reproduzir a penumbra e o claro-escuro das telas de Georges de La Tour.

Tudo se passa entre 1908 e 1909, e quase o tempo todo no Ártico. Mas esta bela história inspirada em fatos reais pode ser bipartida. Na primeira parte, Josephine Peary segue os passos de seu marido, o explorador norte-americano Robert Peary, em sua expedição ao Pólo Norte. Na segunda metade, duas mulheres estão à deriva do (auto)descobrimento, da superação, da dor e do ardor, em quase todos os sentidos. Sofrendo, nas palavras de Coixet, “calamidades sem fim”, Josephine encontra-se na companhia de Allaka (Rinko Kikuchi). Josephine é quem adentra esta noite inóspita por amor ao seu marido, um herói explorador que se autoproclamou o primeiro a pisar no Pólo Norte, mas anuncia-se, afinal, um fantasma inalcançável, mais para vilão, vaidoso e, por que não dizer (?), trapaceiro.

Numa mítica travessia em nome da glória, Peary deixou esposa e filha em Washington, e Josephine, cansada de esperar, vai atrás dele, sem se importar com as condições climáticas nem com a vida das pessoas que o acompanhavam. Ela, de burguesia adinheirada e cultivada, sentia, como seu marido, um desprezo por todos os que não pertenciam a sua classe. Curiosamente, Josephine, perdida na imensidão da neve, segue com seu simulacro de vida. Quando percebe que tipo de homem é seu marido, inicia sua autêntica noite ártica. Fica ao seu lado, uma esquimó de inteligência natural e nobre que salva a vida de uma ocidental mais preocupada com um gramofone do que com as pessoas que a cercam.

O tratamento do tempo cinematográfico nem sempre acompanha o tempo real mas, assim, a aventura de exploração do mundo que se quer como maior que a vida acaba por se transformar numa exploração intimista. E aí se tem, de fato, algo extraordinário, pois é essa a odisseia de Josephine: cinco meses de escuridão tornam-se numa viagem emocional, quase claustrofóbica. Ninguém deseja a noite é um filme polar, de pólos, sem alimento, sem água, sem saída, no lugar mais inóspito da Terra. Parece uma viagem geográfica, mas a geografia não é mais que uma descida interior.

Além de tudo, Josephine Peary é Juliette Binoche. E só por isso já vale o filme inteiro.

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