um-estado-de-liberdade Se uma mensagem fica clara em Um estado de liberdade é a de que, não importa quanto tempo passe, o protagonismo negro continua sendo negado. Com um personagem principal branco a frente de uma história que se propõe a tratar da escravidão e do preconceito racial antes e depois da Guerra de Secessão o filme mostra, ainda que em um enorme ato falho, o quanto ainda é preciso caminhar.

Mississípi, 1862. Em uma sequência inicial excelente e promissora com cenas viscerais e sangrentas, que podem beirar o incômodo, somos dragados para o meio da Guerra Civil Americana, em que mais de 600 mil homens foram mortos, de forma crua e brutal, sem nenhuma romantização. Logo somos apresentados à Newton Knight, personagem de Mathew McConaughey (O lobo de Wall Street e Clube de Compras de Dallas), que, em sua primeira aparição, já mostra a que veio, o enfermeiro herói percorre o acampamento para salvar a vida de um soldado e o faz passar por um oficial para que seja atendido prioritariamente. E assim começa a trajetória do homem que, como fora da lei, no melhor estilo Robin Hoodiano, lutou pela independência e igualdade racial em parte do sul dos Estados Unidos. A consciência de que é uma luta de “Homens pobres lutando a guerra de homens ricos” aumenta com a aprovação da lei que liberava serviço militar àqueles que possuíam mais de “20 negros”.

O jovem sobrinho do enfermeiro é forçado a servir e é jogado no campo de batalha, sem nenhuma experiência ou ideia do que está fazendo e coma promessa de protegê-lo se vê obrigado a lutar. O rapaz é morto em poucos minutos, sua morte é recebida como muitas outras em uma tentativa de romantizar a luta, “Ele morreu com honra!” “Não, ele apenas morreu” e assim, ele abandona tudo e volta para casa levando o corpo de seu sobrinho.

O que fica quando os homens vão para guerras? Mulheres, crianças, fazendas e plantações, animais. Tudo ao alcance do mais forte, no caso, o próprio Estado que se apropriava de tudo que podia em nome da guerra, deixando mulheres e crianças a mercê da própria sorte para enfrentar a fome e o frio sem o que comer ou vestir, já que tudo era confiscado. Quando volta para sua fazenda, Newt logo reage e, como desertor e traidor, passa a ser perseguido, inclusive pelos capitães do mato que colocam os cachorros atrás dele, os mesmos que perseguem os escravos fugidos, numa tentativa de aproximar o personagem dos escravos. Com a ajuda de Sally (Jill Jane Clemens), ele escapa para o pântano onde se junta a um grupo de escravos fugitivos, onde conhece Moses (Mahershala Ali). O pântano dá ao filme um belíssimo cenário responsável por lindas cenas, muito bem exploradas pela direção de fotografia de Benoit Delhomme (O menino do pijama listrado e A teoria de tudo).

A medida que a guerra avança o número de desertores que se junta ao bando de foragidos aumenta e eles ganham cada vez mais espaço até a tomada de cidades e, por fim, a declaração do “Estado livre de Jones”. As pretensões do filme não param por aí e com o fim da guerra a narrativa continua acompanhando a suposta conquista de direitos pelos negros livres e a tentativa de se estabelecerem como parte da sociedade. A essa altura, essas construções são muito rápidas e as passagens de tempo são muitas. O filme vai até mais ou menos 1930, mas a mensagem é nítida, sua liberdade continua a ser cerceada por burocracias e leis como a do “aprendiz”, que funciona para mantê-los onde sempre estiveram. A ameaça física e psicológica aumenta com a ascensão da KuKluxKlan e milhares de negros são perseguidos e mortos. Uma passagem de tempo que nos leva ao julgamento de um dos descendentes de Newton e Rachel que é preso por ser ¼ negro e ter se casado com uma mulher branca. O maior crime cometido por ele foi, não a deserção ou a insurreição contra o governo, mas a miscigenação. Os negros continuam, em sua grande maioria, à margem da sociedade, lutando por direitos e liberdade.

Com o avanço da história podemos perceber as modificações e amadurecimento do personagem de Mathew McConaghey, que está cada vez mais distante dos personagens sem camisa bonachões que marcaram uma parte considerável de sua carreira. Uma excelente atuação para um personagem com muitas nuances, mas que infelizmente, não são exploradas. Toda a construção do personagem é superficial, onde ele é o herói. Quais são os seus conflitos? Quais são suas motivações? Até mesmo os relacionamentos, seja com a sua primeira esposa, Serena, interpretada por Keri Russel (Felicity e Planeta dos macacos: o confronto), que vai embora com o filho após a fuga de Newton para o pântano. Ou com Rachel (Gugu Mbatha-Raw) que é a grande responsável por ajudar os homens fugitivos levando comida e suprimentos e acaba se relacionando com ele futuramente, virando sua segunda esposa. Nada no personagem é mais profundo, ele é nobre, altruísta e super eloquente, sempre com uma resposta pronta ou um belo discurso. O elenco é de longe a melhor coisa no filme que conta também com Moses de Mahershala Ali (House of Cards e Luke Cage).

O filme é longo, e para abarcar todo o período pretendido, assim se fazia necessário. O que causa talvez maior incômodo é a maneira como a história é contada, uma narrativa linear que muito se assemelha à uma recriação histórica no estilo “History Channel”, que apesar de contar com algumas cenas brilhantes, como a do funeral, não empolga muito na maior parte do tempo. Outro problema do roteiro é o quão pouco crível e idealizados alguns momentos são, como a cena em que Rachel e Serena conversam e costuram na varanda. A montagem também dá ao filme um grande problema de ritmo. O filme que tinha muito potencial, pela importância e relevância do momento histórico abordado, acaba se tornando enfadonha e superficial, apesar das mais de duas horas de filme.

Gary Ross, que também escreveu o roteiro com Leonard Hartman entrega um filme muito aquém do que poderia ter sido, tanto que, talvez para compensar as críticas por vir criou uma página, uma espécie de cartilha que explica o filme  ( http://freestateofjones.info/ ). Com ou sem manual de instruções é um filme nos moldes de premiações hollywoodianas, mas se esforça tanto para se enquadrar que dá preguiça.

1 Comentário

  1. Patricia, eu concordo com você com 90% do que você escreveu. Mas pra mim o filme funcionou. A mensagem foi clara, curti a edição, curti ainda mais ser levado por uma história que honestamente me surpreendeu. Concordo que algumas cenas estão lá pra colocar o McConaughey como mártir semi-heroi de filme de ação. Mas isso não destruiu a mensagem do filme pra mim.

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