Vencedor do prêmio de melhor roteiro e de melhor ator (para Shahab Hosseini) no último Festival de Cannes, O apartamento é talvez o melhor filme de Asghar Farhadi, diretor do celebrado A separação, que volta às telas com uma história sobre os dilemas morais do Irã moderno. Além de oferecer valiosas reflexões morais (costumes), também propõe questões éticas – em sua etimologia, ethos significa literalmente morada, o lugar onde as pessoas habitam.

O último longa de Farhadi é uma espécie de realismo social e se desenvolve, como de costume, em torno do lar. Num filme que conta a história de uma família, mais que papel primordial na trama, a casa é praticamente o personagem central. Além da casa onde vive o casal Emad e Rana, a personagem feminina é posta em destaque num espaço em disrupção. Emad é professor, Rana fica em casa, ambos são atores talentosos de um grupo meio amador meio profissional de teatro que está produzindo A morte de um caixeiro-viajante, de Arthur Miller. Assim que o espetáculo começa a ser encenado, eles são forçados a se mudar porque o prédio onde moram parece estar desmoronando devido a falhas na construção. Farhadi cria uma cena extremamente perturbadora com rachaduras que se encaixam nas janelas quebradas apontando, ao mesmo tempo, para uma catástrofe em maior escala: toda a construção (social) está em colapso.

Devido a riscos de desabamento no prédio onde morava, Emad e Rana são forçados a se mudar para um novo apartamento no centro de Teerã, que, pelo que parece, era habitado por uma mulher que trabalhava como prostituta. Mas quando eles descobrem quem costumava morar ali antes deles, Rana já havia aberto a porta pensando que era para o seu marido. Mas não era.

A justaposição entre as cenas da vida real e da peça de Arthur Miller não são gratuitas, nem a demonstração formal das emoções, nem o realismo confuso e um tanto sombrio. A introdução da peça é uma inteligente narrativa em abismo num filme que também aborda um crime com vingança-justiça. Assim como em A separação e O passado, o sétimo longa de Asghar Farhadi investiga novamente a natureza humana e as relações entre homens e mulheres. Ao narrar a história de um casal de atores que enfrenta grandes mudanças quando mudam de casa, este suspense reflete as relações humanas e a (auto)destruição de uma determinada classe social. A semelhança com os personagens de Arthur Miller, típicos da classe média, é evidente. O viajante da peça vive em Nova Iorque, Emad e Rana vivem em Teerã – duas cidades às vezes mais semelhantes do que se poderia supor.

Há quem considere este drama iraniano o nascimento de um novo gênero do cinema universal, aquele que deriva do impacto causado por Haneke e Antonioni: um casal de classe média condescendente segue com suas vidas e de repente sofre o golpe de um evento horrível, misterioso e anônimo, que revela a culpa e a vergonha em decorrência de cumplicidades, rumores e concessões. Mas da violência sexual e da zona de conforto surgem questões derivadas de construções culturais e simbólicas. Tantas vezes sem respostas.

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