Dirigido por Bille August (de A casa dos espíritos, 1993), com um elenco fenomenal e adaptado do best-seller homônimo de Pascal Mercier, Trem noturno para Lisboa tinha tudo para ser, também no cinema, um sucesso, mas parece que não foi isso o que aconteceu.

A última produção do cineasta dinamarquês é um telefilme cujo protagonista, depois de ter salvado uma jovem do suicídio, fica com o seu casaco e descobre, dentro dele, um livro e uma passagem para Lisboa. Abandona seus alunos e embarca num trem em busca de respostas para o mistério que rodeia a tal jovem (que desaparece logo após o incidente) e que acaba também por perturbá-lo. É o livro escrito por Amadeu de Prado (Jack Huston), um médico português, durante o regime de Salazar que incita a sua curiosidade fazendo-o peregrinar por uma Lisboa turística.

Com esta peregrinação, Gregorius (Jeremy Irons) tenta reconstruir o passado e entender uma História, juntando fragmentos de um quebra-cabeça. Conhece pessoas que, afinal, vão ajudá-lo nesta tortuosa empresa, como a oftalmologista Mariana (Martina Gedeck). Intercala-se a este presente a década de 1970, quando é formado um triângulo amoroso por Amadeu, Jorge (August Diehl) e Estefânia (Mélanie Laurent). Ambos, o médico e seu melhor amigo, apaixonam-se por ela. Como pano de fundo, há um outro duelo muito mais amargo: o embate entre a repressão e o antifascismo. Apesar disso, a questão política jamais deixa de ser mero pano de fundo e o que se sobrai são mesmo as reviravoltas melodramáticas.

Contudo, se há mensagem subjacente é a do desejo intempestivo de Gregorius de fugir do seu cotidiano em busca de uma aventura (que nem a sua era). O problema é que essa chama que o já idoso professor vai em busca não é passada para o espectador. As ações parecem demasiado protocolares. O grande problema talvez seja a romantização de um período extremamente sombrio para a História portuguesa como foi a ditadura salazarista.

Muitos elementos do filme me atraíram para assisti-lo: a direção, o elenco (Jeremy Irons e Martina Gedeck, particularmente), o enredo. Não que a direção não seja boa, nem que o elenco – com estrelas tarimbadas – não esteja bem. É que há aspectos especialmente irritantes. Por exemplo, o fato de um filme que (parte dele) se presta a contar uma história portuguesa, em que todos os atores – americanos, alemães, suecos e portugueses – falam inglês, restando aos atores portugueses papeis de menor destaque. Mas, como a produção é suíço-alemã, a escolha da língua (ou uma não-língua, língua neutra?) se justifica. E, além disso, uma fotografia de novela vespertina, uma maneira um tanto naive de lidar com assuntos sérios que envolvem o regime salazarista e o modo meio atabalhoado como se encerra o longa. Esperava mais do trio Bille August, Jeremy Irons e Martina Gedeck.

Foto: Divulgação

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