Premiado com a melhor direção no Festival de Sundance, Um Cadáver para sobreviver é talvez um dos filmes mais incomuns que se possa assistir.

Uma inesperada mistura da comédia Um morto muito louco de 1989 dirigida por Ted Kotcheff, com o drama O Naufrago de 2000 dirigida por Robert Zemeckis, é como inicialmente se apresenta Um Cadáver para sobreviver .

Nos primeiros 10 minutos de exibição vemos Hank (Paul Dano), um jovem naufrago que está se preparando para se suicidar. Ao observar o surgimento de um corpo que foi carregado pelo mar, Hank corre na tentativa de salvar aquela pessoa e finalmente ter uma companhia, mas aquele corpo inerte e em processo de decomposição começa a fazer barulhos de flatulência e soltar gases. Então, Hank usa aquele corpo como jetski através dos gases como se fosse um moto, à caminho de uma floresta.

Achou bizarro e grotesco ? Realmente é. Ao longo da exibição vemos Hank usar o cadáver como um canivete suíço. Ele extrai água dele e bebe, e até o penis do morto é um utilizado como bússola ou GPS que aponta para o lado certo. Mas calma, o filme não é uma galhofa sem sentido. Em seu desenvolvimento o filme vai se transformando em metáforas, discussões sobre depressão e se estabelecendo uma grande jornada de auto conhecimento e aceitação.

Estabelecido por grande tom de fantasia, Hank vai criando laços afetivos por aquele cadáver demonstrando que todos temos a necessidade de estabelecer ligação com algo, ou alguém. E quanto mais Hank humaniza e sociabiliza com aquele cadáver, mas ele cria vida. Aos poucos aquele cadáver, que diz se chamar Many, começa a falar, a desejar e sonhar.

Como um bebê recém nascido que não saber nada do mundo, Many é uma alma inocente, e Hank vai apresentando não apenas a vida e o mundo, mas a sua vida o seu ponto de vista. E essa troca que construiu a profundidade do filme e discussões rebuscadas mas conceitualmente simples e verdadeiras.

Temos o confronto de um homem vivo mas auto depreciativo, pessimista e depressivo, com um homem morto, em decomposição, que sonha, se apaixona e tem o desejo de estar vivo.

Mas para segurar toda essa carga emocional misturada com um humor estridente e escatológico, não é necessário apenas um ótimo roteiro e condução, é necessário dois excelentes atores que estarão sozinhos quase o tempo inteiro de projeção. Paul Dano mais uma vez demonstra seu talento e facilidade de interpretar um personagem neurótico, falho. Alias, Dano deveria ser mais reconhecido pelas premiações e merecia aqui uma indicação.

A surpresa maior é Daniel Radcliffe, o eterno Harry Potter. É louvável a tentativa de Radcliffe em experimentar e fazer filmes com papeis diversos e até absurdos, mas sempre houve a dúvida do seu talento, que aqui é comprovado. Interpretando quase o tempo todo inerte e sem o uso do corpo, Daniel Radcliffe passa imensa humanidade, fragilidade e carisma. Sua química e cumplicidade com Paul Dano em cena é incontestável .

Os estreantes Daniels, como se intitulam os diretores Dan Kwan, Daniel Scheinert, entregam um filme repleto de simbolismo que investiga a baixa estima e a auto aceitação com possíveis interpretações pelo caráter fantasioso e nonsense da trama.

Incomum e estranho sim. Não é um filme para todos. Alguns não vão passar dos primeiros minutos, mas quando visto por completo e analisando suas peculiaridades é um filme que o cinema de hoje precisa. É corajoso, arriscado, incomum e que te deixa encantado e reflexivo. Fazer do peido algo bonito e com significado é para poucos.

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