Eu me recordo que em 2015 no meio da corrida do Oscar, ao assistir o filme “O Regresso” de Alejandro González Iñárritu, a primeira coisa que me veio a mente enquanto ainda estava ruminando aquela obra prima, era de quão seria incrível ver um filme do Wolverine naqueles moldes.

O filme que deu o Oscar de melhor diretor a Iñárritu, é um grande estudo de personagem sobre a tentativa de sobrevivência em um meio inóspito, e muito mais do que isso, fala da relação do homem com a natureza e seu lado selvagem e animalesco.

Uma das grandes temáticas e sub-textos das HQ’s de X-Men e do Wolverine, eram exatamente essa dualidade de homem e da besta selvagem no personagem. Até os traços mais populares de Wolverine sempre evocam uma visão mais próxima de Fera. Ele é baixinho, feio, meio corcunda e extremamente peludo, o que sempre causou um espanto por parte dos fãs do personagem, já que Hugh Jackman que sempre esteve mais para galã, nunca teve qualquer semelhança até o momento.

loganMuitos fãs, assim como eu, gostariam de ver nas telas alguns elementos mais fiéis e tramas com mais substâncias de X-Men, mas a linha temporal extremamente confusa e narrativas infantilizadas impossibilitavam isso.

Alguns filmes daquele Universo como “X-Men 2” e “X-Men: Primeira Classe” se destacavam e davam vitalidade aos seus personagens, mas faltava congruência com suas outras sequências que pareciam ser sempre sentimento, com objetivo de aventuras caça-níquéis e abandonando elementos tão identificatórios dos mutantes.

A grande verdade que aqueles personagens nunca tinham sido adaptados com seu devido respeito e maturidade. Sempre foi dito de que quadrinhos são leituras para crianças, mas pelo contrário, diversas revistas de heróis receberam arcos marcantes com histórias adultas recheadas de camadas.

X-Men O filmeCustou muito para o que gênero dos heróis tivessem êxito no cinema e os primeiros a darem essa credibilidade foi “Blade” e “X-Men: O filme” , demonstrando que era possível sim trazer pessoas aos cinemas e conquistar não só o público infantil.

Mas depois de dezenas de adaptações de heróis, em sua maioria com grandes bilheterias, parece que foi criado uma formula de sucesso para esse tipo de filme realizado pela própria Marvel estúdios.

A FOX, detentora dos direitos de alguns personagens da Marvel como “Quarteto Fantástico” e “X-Men”, a Sony detentora do “Homem Aranha” tentam se espelhar nesse molde de produção, mas sem o mesmo êxito.

Faltava um frescor, uma tentativa de explorar melhor o gênero, de trazer mais relevância e peso narrativo. Por mais que possua bons filmes, a Marvel desperdiçou grandes possibilidades de adaptações de arcos de profunda importância em filmes como “Guerra Civil” e “Homem de Ferro 3”. O estúdio parece ter medo de algo que possa trazer consequências mais fatais aos seus personagens.

“Homem de Ferro 3

Pertencente a rival da Marvel, a DC apresentou na trilogia do Batman de Nolan, uma referência na jornada do herói. Principalmente em “Batman: O Cavaleiro das Trevas”, a figura do vilão Coringa interpretado magistralmente por Heath Leadger, cria anarquismo em Gotham e demonstrando verdadeiros elementos de conflito e caos em cena, construindo um tom de urgência e retirando seu personagem central, um dos heróis mais populares do mundo, de sua zona de conforto.

Batman O Cavaleiro das Trevas

Por mais que a trilogia do Cavaleiro das Trevas tenha suas inúmeras qualidade e relevâncias, se trata de uma reinterpretação daquele Universo pelo olhar de Nolan. Tanto que ele abre mão de qualquer elemento mais místico ou sobrenatural existente nos quadrinhos, trazendo assim uma característica mais realista, o que funciona, porém exclui possibilidades muito pertinentes, e personagens que poderiam ter mais força em cena como o caso de Ra’s Al Ghul (Liam Nesson), que nos quadrinhos é líder da Liga dos Assassinos, e acredita ser o responsável para guiar a humanidade, além de possuir o Poço de Lazaro, o qual cura, ressuscita e rejuvenesce, dando assim imortalidade a Ra’s Al Ghul.

Talvez os dois fatores mais importantes para essa nova era de adaptação dos heróis contemplada por “Logan”, seja as séries da Marvel com a Netflix, que por não serem exibidas na TV, possuem maior liberdade de classificação etária, e assim refletindo em histórias mais maduras e complexas, com violência gráfica. E o enorme sucesso de Deadpool, um filme de baixo orçamento, com classificação etária de mais de 18 anos, que não leva a sério o gênero, que faz piada escrachada com violência e sexo, demonstra que o público aceita, e tem interesse sim em assistir coisas diferentes com heróis.

DeadpoolSó então com o sucesso de “Deadpool”, que Hugh Jackman teve um sinal verde para fazer um filme do Wolverine como sempre quis. Não só o retrato definitivo do personagem, como também seu último trabalho no papel do mutante das garras de Adamantium.

“Logan” já é um marco definitivo ao gênero por se tratar de uma adaptação bem mais fiel ao cerne de seu protagonista, como também trazer uma narrativa de personagem através de outros gêneros como o Western, o Road Movie e a ficção cientifica. O pano de fundo do futuro distópico, servem aqui para discutir a natureza e dualidade de Logan, o cansaço e desgaste de alguém que foi forçado a ser algo por quem o transformou, lutando assim sem trégua em uma guerra sem aparente fim e escolha. E aqui, através da personagem de Laura, a X-23, Logan se depara novamente com seu lado humano, e um o qual talvez não reconhecesse, o paternal.

Com o sucesso já demonstrado nas bilheterias, o filme já arrecadou quase US$ 90 milhões apenas nos EUA em menos de uma semana em cartaz, é mais do que nítido que iremos assistir muito em breve outras adaptações com classificações etária de maiores de 18 anos, e maior liberdade artística.

“Logan” não apenas abriu para possibilidade de gêneros e narrativas, mas amplia o nicho de filmes de heróis, o qual alguns já ditavam como saturado. Que esse universo seja sabiamente usado como ferramenta, e futuramente possa figurar de igual para igual com grandes obras em premiações. Talvez o próprio “Logan” tenha essa chance nas premiações do ano que vem.

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