Baseado no livro da Bielorussa Svetlana Alexievich (War’s Unwomanly Face) que serviu de material para a transposição ao tablado das histórias das mulheres eslavas que lutaram na Segunda Guerra Mundial.

Da tradução de Cecília Rosas, Marcello Bosschar concebe e conduz três grandes atrizes em narrativas amalgamadas, cuja linha mestra é a experiência de jovens que queriam ser noivas, donzelas, musas, mas que tiveram sua inocência dilacerada pela dureza da guerra. Contudo, não deixaram de ser femininas, belas.

A Guerra não Tem Rosto de Mulher (2017)São conjugadas vivências de bravura e de enfrentamento de medos. Os medos que todos temos, mas que exacerbam-se com a luta armada. Coisas vis que são capazes de marcar gerações.

É a chegada de um texto muito robusto, já consagrado na Europa, às rodas cênico-literárias do Brasil. O romance de Svetlana traz um aporte original ao tema da guerra, que é por si tão explorado. E a sua adaptação aos palcos, ao menos na concepção de Bosschar, foi bastante sensível e potencialmente empática.

Os relatos das meninas que tornam-se mulheres em meio à violência e ao som dos tiros são a base para a captura de um sentimento muito específico – um quase desperdício de vida e uma necessidade de superação, de seguir em frente.

A Guerra não Tem Rosto de Mulher (2017)Atrizes precisas em suas alternâncias de registros e altivas em sua propriedade em relação ao fazer dramático são o vórtice do sucesso poético da montagem. Luisa Thiré, Priscilla Rozenbaum e Carolyna Aguiar, por motivos diferentes e com os brilhos particulares de cada perfil, encontram um lugar realmente comovente para viverem o que contam. Percebe-se que elas sentem enquanto encenam. Percebe-se a plenitude e a verdade das intérpretes; a cada fôlego, a cada palavra. É uma coordenação muito afinada entre a partitura de cada uma.

Pode-se dizer que há secura de liguagem, no sentido de não haver nada a mais do que causos, tocantes por si só. Sem pirotecnias, mas com muito vigor, o espaço é preenchido com a luz e as vozes daquelas personagens, pessoas, das quais pouco ou nada se conhecia até ali.

Da placidez ao Heavy Metal, um caminho extenso é percorrido pelas narrativas, entrecortadas, complementares. Em certos momentos instaura-se a contemplação do lúgure, mas logo é quebrada por rajadas descritivas, por passos largos e vivos, por gritos, celebração. É, no fim, um apanhado de emoções, que culmina em vitória, júbilo.

No mundo ocidental e na América Latina, pouco se fala do lado soviético e feminino do conflito internacional contra o fascismo. Talvez – além de uma oportunidade de se emocionar com histórias de mulheres comuns que tiveram que se reinventar dado o horror do fronte -, assistir ao espetáculo seja uma chance de conhecer e de se interessar pela realidade do Leste europeu, culturas tão ricas apesar de historicamente distanciadas do mundo do Oeste; de conhecer o universo da premiada pelo Nobel de 2015, Svetlana Alexievich.

SERVIÇO:
“A Guerra Não Tem Rosto de Mulher”
Temporada: De 01 de julho a 27 de agosto
Quinta a sábado, às 21h. Domingos, às 20h.
Local: Teatro Poeira (R. São João Batista, 104 – Botafogo)
Ingressos: R$ 60 (inteira) e R$ 30 (meia)  www.tudus.com.br
Funcionamento da bilheteria: Terça a sábado 15h às 21h, domingo 15h às 19h.

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