“Uma noite feita pela música, para a música” – O discurso de abertura emocionado de José Maurício Machline, idealizador do Prêmio da Música Brasileira, deu tom à noite de ontem, no Teatro Municipal do Rio de Janeiro. O Prêmio, uma celebração à música brasileira perdeu o patrocínio e por pouco não chego à sua 28ª edição. Os muitos agradecimentos feitos por ele nos momentos iniciais do evento ressaltaram o caráter colaborativo com o qual a premiação foi realizada, agradecimentos que incluíam, entre muitos artistas, até as amigas de sua filha, que se mobilizaram e trabalharam como assistentes de palco.

O espetáculo foi, sem dúvida, uma materialização da popular expressão “Menos é Mais”. E é curioso perceber como aqueles momentos, que acreditamos ser os mais difíceis, são os que, no fim, produzem os resultados de maior valor.

As diferenças entre essa edição e as demais era notória já desde a abertura do teatro. Com muito menos pompa e glamour, pelos quais, geralmente, estão cercados esses eventos. Uma entrada simples pela lateral do teatro recebeu os convidados, que incluíam muitos dos indicados aos principais prêmios da noite, em um clima mais informal e descontraído que de costume, reunindo artistas consagrados e novos artistas de diversas vertentes da música nacional sob os mesmos poucos holofotes.

A premiação se propõe a ser cada vez mais democrática e abraçar cada vez mais diferentes aristas, mas apesar das intenções alguns dos vencedores da noite, ilustram a resistência que ainda existe em sair do lugar comum e reproduzem o mais do mesmo com ao qual estamos acostumados.

Porém, o evento foi bem sucedido de muitas outras maneiras. Nenhum outro artista representaria tão bem essa edição do Prêmio da Música Brasileira. A arte, o talento, no fim são o que realmente importa. Em uma edição marcada pelas dificuldades financeiras, grande espelho da realidade atual, o grande destaque foi da arte. Da arte e da paixão de se fazer algo em que se acredita, da poesia, da resistência, da música.
O envolvimento da classe artística foi crucial para garantir a realização da cerimônia, e esse apoio transbordou no palco com belíssimas e emocionantes apresentações. Os convidados apresentaram versões de músicas que ficaram famosas na voz de Ney Matogrosso e o repertório passeou, assim como a narrativa construída pelas apresentadoras Zélia Duncan e Maitê Proença, pela vida e obra do Artista.

Ivete Sangalo, vencedora do prêmio de melhor cantora na categoria Canção Popular, cantou “Sangue latino”; Alice Caymi e Laila Garin, surpreenderam o público com a apresentação de “Bomba H”; Chico Buarque, envolto em poesia, emocionou a plateia com a apresentação de “As Vitrines”; Pedro Luís, em uma apresentação contagiante, cantou de olhos vendados e deu a apresentação tons políticos como pede a letra da canção “O Mundo”; Carol Conka, como era de se esperar “lacrou” em uma performance explosiva de poder feminino e representatividade com música “Homem com H”; Lenine, sempre envolvente parecia conversar com o público com “Bicho de 7 cabeças”; BaianaSystem, que levou dois prêmios, revelação MPB e grupo na categoria pop/Rock/Raggae/Hip-hop/Funk, fez uma apresentação forte e marcante de “Inclassificáveis”;

Para a sorte e privilégio dos presentes, a noite terminou com uma espécie de pocket show de Ney Matogrosso, que cantou, para delírio do público, de forma animada e contagiante, algumas canções importante da sua carreira como Rosa de Hiroshima e a balada do louco.

A apresentação chegou ao auge com “Pro dia nascer feliz” em que a divertida performance enlouqueceu os presentes, que já entre gritos e aplausos acompanhavam tudo de pé animadamente, fazendo coro com o cantor, transformando o evento numa verdadeira celebração não só à obra imensurável de Ney Matogrosso mas à música de maneira geral.
Que o Prêmio desse ano tenha servido para colocar sob nova perspectiva a maneira como se lida com a arte e a música de maneira geral. E que para as próximas edições, ainda que com patrocínio, a Música, o Talento e a Arte continuem sendo os grandes protagonistas e que a diversidade se reflita enfim nos vencedores.

Veja abaixo a lista completa do grandes vencedores:
MPB – Álbum:
“Abraçar e agradecer” (Maria Bethânia)
“Batom bacaba” (Patricia Bastos)
The bridge” (Lenine e Martin Fondse Orchestra)

Cantor:
João Fenix (“De volta ao começo”)
Lenine (“The bridge”)
Vidal Assis (“Álbum de retratos”)

Cantora:
Maria Bethânia (“Abraçar e agradecer”)
Patricia Bastos (“Batom bacaba”)
Zizi Possi (“O mar me leva”)

Grupo:
MPB4 (“O sonho, a vida, a roda viva!”)
Quarteto em Cy (“Janelas abertas”)
Tão do Trio (“Flor de dor: Tão do Trio canta Etel Frota)

Melhor Canção:
“Descaração familiar” (Tom Zé)
“Dizputa” (Carol Naine)
“Nunca mais vou jurar” (Zeca Pagodinho, Arlindo Cruz e Marcelinho Moreira)

Revelação:
BaianaSystem (“Duas cidades”)
Liniker e Os Caramelows (“Remonta”)
Vidal Assis (“Álbum de retratos”)

CANÇÃO POPULAR
Álbum:
“Cine ruptura” (Saulo Duarte e a Unidade)
“Elza canta e chora Lupi” (Elza Soares)
“Gatos e ratos” (Odair José)

Dupla:
Leonardo e Eduardo Costa (“Cabaré night club”)
Milionário e Marciano (“Lendas”)
Zezé di Camargo e Luciano (“Dois tempos”)

Grupo:
Roupa Nova (“Todo amor do mundo”)
Samuca e a Selva (“Madurar”)
Saulo Duarte e a Unidade (“Cine ruptura”)

Cantora:
Ellen Oléria (“Afrofuturista”)
Elza Soares (“Elza canta e chora Lupi”)
Ivete Sangalo (“Acústico em Trancoso”)

Cantor:
Luiz Caldas (Pré-axé”)
Odair José (“Gatos e ratos”)
Romero Ferro (“Arsênico”)

POP/ ROCK/ REGGAE/ HIP-HOP/ FUNK 

Álbum:
“Canções eróticas de ninar” (Tom Zé)
“Palavras e sonhos” (Luiz Tatit)
“Tropix” (Céu)

Grupo:
BaianaSystem (“Duas cidades”)
Metá Metá (“MM3”)
O Terno (“Melhor do que parece”)

Cantora:
Céu (“Tropix”)
Larissa Luz (“Território conquistado”)
Maria Gadú (“Guelã ao vivo”)

Cantor:
Rael (“Coisas do meu imaginário”)
Silva (“Silva canta Marisa”)
Zeca Baleiro (“Era domingo”)

SAMBA
Álbum:
“De bem com a vida” (Martinho da Vila)
“O quintal do Pagodinho: Ao vivo – Vol. 3” (Zeca Pagodinho)
“Samba original” (Pedro Miranda)

Cantora:
Mart’nália (“Misturado”)
Roberta Sá (“Delírio no Circo”)
Teresa Cristina (“Teresa Cristina canta Cartola”)

Cantor:
Martinho da Vila (“De bem com a vida”)
Pedro Miranda (“Samba original”)
Zeca Pagodinho (“O quintal do Pagodinho: Ao vivo – Vol. 3”)

Grupo:
Casuarina (“7”)
Galocantô (“Pano verde”)
Grupo Bongar (“Samba de gira”)

REGIONAL
Álbum:
“Cabaça d’água” (Alberto Salgado)
“Celebração” (Valdir Santos)
“Vivo! Revivo!” (Alceu Valença)

Grupo:
Grupo Rodeio (“Trilhando o Rio Grande”)
Serelepe (“Forró por aí…”)
Viola Quebrada (“Meus retalhos”)

Dupla:
Caju e Castanha (“O papo no WhatsApp”)
Craveiro e Cravinho (“Canta Tonico e Tinoco”)
Zé Mulato e Cassiano (“Bem-humorados”)

Cantor:
Alberto Salgado (“Cabaça d’água”)
Alceu Valença (“Vivo! Revivo!”)
Raymundo Sodré (“Os girassóis de Van Gogh”)

Cantora:
Ana Paula da Silva (“Raiz forte”)
Dona Onete (“Banzeiro”)
Socorro Lira (“Cores do Atlântico”)

INSTRUMENTAL
Álbum:
“A saga da travessia” (Letiers Leite e Orkestra Rumpilezz”)
“Alegria” (Hamilton de Holanda)
“Outra coisa” (Anat Cohen e Marcello Gonçalves)

Solista:
Hamilton de Holanda
Mestrinho
Toninho Ferragutti

Grupo:
Banda Mantiqueira (“Com alma”)
Letiers Leite e Orkestra Rumpilezz (“A saga da travessia”)
Trio Madeira Brasil (“Ao vivo em Copacabana”)

Arranjador:
Letieres Leite (por “A saga da travessia, de Letieres Leite e Orkestra Rumpilezz”)
Luis Felipe de Lima (por “Samba original, de Pedro Miranda)
Zé Manoel (por “Delírio de um romance a céu aberto”, de Zé Manoel)

Projeto visual:
Filipe Cartaxo (por “Duas cidades”, de BaianaSystem)
Giovanni Bianco (por “Amor geral”, de Fernanda Abreu)
Mário Niveo (por “Jardim pomar”, de Nando Reis)

CATEGORIAS ESPECIAIS
Álbum eletrônico:
“Craca, Dani Nega e o dispositivo tralha” (Craca e Dani Nega)
“Incerteza” (Retalho)
“Subtropical temperado” (Projeto CCOMA)

Álbum infantil:
“Farra dos Brinquedos” (Farra dos Brinquedos)
“Os saltimbancos sinfônico” (Orquestra Petrobras Sinfônica)
“Vem dançar” (Pequeno Cidadão)

Álbum em língua estrangeira:
“Old friends (the songs of Paul Simon)” (Ritchie e Black Tie)
“Perpetual gateways” (Ed Motta)
“Yentl em concerto” (Alessandra Maestrini)

Álbum erudito:
“Ernesto Nazareth integral” (Maria Teresa Madeira)
“Latinidade, música para as Américas” (Orquestra Ouro Preto)
“Radamés toca Radamés” (Quarteto Radamés Gnatalli)

Álbum projeto especial:
“A luneta do tempo” (Alceu Valença)
“Delírio de um romance a céu aberto” (Zé Manoel)
“Irineu de Ameida e o oficleide 100 anos depois” (vários artistas)

Melhor DVD:
“A democracia da madeira” (vários artistas)
“Dobrando a Carioca” (Zé Renato, Moacyr Luz, Jards Macalé e Guinga)
“Rainha dos raios ao vivo” (Alice Caymmi)

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