O que é arte? Dentre todos os questionamentos que nos perpassam, o conceito de arte talvez seja um dos que mais se modificou e tem se modificado ao longo da história, sendo constantemente redefinido de acordo com o momento e o desenvolvimento da sociedade, sendo quase de impossível de delimitar. A arte tem como um de seus efeitos, gerar desconforto e instigar, muitas vezes levantar questões. A arte contemporânea faz isso de maneira muito singular com a resinificação dos objetos. É muito comum ouvirmos do publico questionamentos como “Ah, mas isso é arte?” “Uma privada no meio de uma sala de museu”, “isso aí até eu faço”. A arte contemporânea expande em muito a ideia de obra de arte para muito mais do que apenas pinturas e esculturas.

Para além do objeto, existe o artista, o maestro que impregna, nesses uma serie de significados para além do seu uso do cotidiano. Que acrescenta sua técnica, seu conceito, sua história e sua mensagem àquilo que a princípio parece banal.

O coletivo artístico, Los Carpinteros, nascido durante a crise econômica cubana, em 1992, momento de grande escassez de matéria prima, surge em meio à necessidade de se utilizar de objetos pré-existentes para dar voz a esses novos trabalhos.

A exposição “Los Carpinteros: Objeto Vital”, em especial, resgata pela primeira vez toda essa trajetória em uma retrospectiva da história dos artistas. Esse retorno às suas origens, no período em que eram estudantes na Escola Superior de Artes de Cuba (ISA), dá uma perspectiva interessante às obras, enriquecendo ainda mais o conteúdo e situando esses artistas e suas produções no tempo e na história.

A exposição está dividida em 3 momentos: Objeto de Ofício, Objeto Possuído e Espaço-Objeto. A narrativa que compõe a montagem da exposição possibilita uma maior compreensão dos muitos significados e de algumas das muitas mensagens impregnadas nessas obras.

A exposição se inicia, com a escultura “Sala de leitura” na abóbada do primeiro piso, e essa estrutura contém muitas das características que perpassam e acompanham grande parte do trabalho do coletivo. Podemos perceber a riqueza de detalhes técnicos, que é surpreendente e chama atenção, principalmente, no terceiro momento da exposição; A releitura, utilização de objetos e formatos para além do “tradicional”; E o caráter político, que se mostra um importante condutor desses artistas.

A “Sala de leitura” é uma estrutura em madeira ricamente construída nos moldes do Presídio Modelo, antigo presídio, hoje abandonado, que se localiza na ilha da juventude em Cuba, onde ficaram presos na década de 50 Raul e Fidel Castro. Essa prisão possui o modelo pan-óptico, um modelo que possui uma torre de vigilância no centro e proporciona uma expectativa de vigilância constante. A obra traz elementos de técnica, ressignificação e referência política marcas do trabalho do coletivo.

É possível perceber ao longo de toda a exposição esse constante questionamento do lugar que os objetos ocupam e ele vem muitas vezes associados a questões políticas. Principalmente no primeiro momento, que é a parte da exposição que nos faz viajar no tempo e nos coloca no contexto político e econômico em que o coletivo surgiu, vemos o quanto suas vivência e as experiências em seu país se materializam nessas obras, as quais vão, em alguns momentos, além do contexto cubano, já que muitas de suas questões políticas nos são muito familiares, apesar das diferenças de regimes.

A presença de muitas obras em madeira nesse primeiro momento é explicada por fatores históricos, políticos e econômicos. Já que muitas das obras se utilizaram de matérias primas retiradas dos antigos casarões, na época abandonados, que pertenciam a alta burguesia cubana que havia sido extinta. Assim como a própria sede da Escola Superior de Artes (ESA), lugar onde eles se conheceram, ao fazer um trabalho em grupo para um professor, que se reutilizava do espaço anteriormente ocupado pelo clube de golfe de Havana, um antigo reduto da alta burguesia local. Se consideram uma espécie de antropólogos da alta burguesia cubana, porque estudaram muito esse passado e o transportaram para dentro de suas obras onde brincam muito e até ironizam aquilo que viria ser a matéria que daria forma a muitos de seus trabalhos. A resinificação está entrelaçada à vida e a obra desses artistas, que devido ao reaproveitamento da madeira, foram apelidados por colegas de Los Carpinteros, apelido que rejeitaram a princípio pelo caráter simples da profissão. Eles queriam mais, queriam ser artistas. Mas com o passar do tempo abraçaram o nome e o usaram a seu favor.

O portátil e frágil palanque de papelão é uma referência de fácil identificação para nós e evidencia, de maneira mais óbvia, as questões políticas que perpassam pelas obras. Outras como a alusão a prédios locais, construídos pelo governo, podem passar despercebidas para nós brasileiros, mas carregam o peso de sua inspiração.

As obras são repletas de significado, embebidas nesse contexto cultural cubano. E muitas obras possuem histórias interessantíssimas como é o caso de “La nieve” um trenó feito em madeira que faz referência a um conto chamado “La outra orilla”, uma referência à Europa até então desconhecida para os artistas.

Em 2003, a configuração do grupo muda quando Alexandre Arrechea decide deixar o coletivo. Marco Castillo e Dagoberto Rodriguez dão continuidade ao projeto que permanece até hoje. A relação entre os três é amigável, tendo Arrechea, hoje também um artista renomado, inclusive, comparecido à abertura da exposição em São Paulo.

À medida que ganhem notoriedade e representatividade, com obras em importantes coleções do mundo, o seu universo se expande para além das problemáticas especificamente cubanas e começas a abordar questões existenciais universais, como o consumismo e a produção de lixo. Segundo o curador, “A transterritorialidade característica da arte contemporânea leva os artistas a um terreno aberto em que dividem preocupações com criadores de diversas nacionalidades, à margem de suas origens”.

Algumas temáticas se repetem, como a música, elemento importante e marcante da vida cubana, as piscinas, que possuíam um significado muito específico, dentro da vida cubana. As piscinas eram proibidas e esvaziadas e utilizadas pela população de diversas maneiras, como por exemplo, lugar de armazenamento. No trabalho do coletivo eles fazem com as piscinas um caminho contrário, mais uma vez fazendo uso da ressignificação, mas agora retornando esse objeto, uma vez desapropriado da vida cubana, para seu uso original.

A riqueza da técnica dos artistas é impressionante e se destaca na última parte da exposição, quando vemos materializados projetos que anteriormente não haviam saído do papel. É, realmente, impressionante ver essas obras construídas milimetricamente com tamanha perfeição.

Um equilíbrio delicado entre o humor e o comentário político, entre o global e o contextual, os artistas se utilizam de diversos formatos e materiais como a madeira, o lego, piscinas, carrinhos de mercado, para expandir seus usos e significados reconfigurando as ideias de forma muito técnica e precisas para comunicar suas ideias, realidade e fazer críticas políticas sociais. É sem dúvida um acréscimo, não só de conhecimento, mas de criatividade já que a ideia de se apropriar de significados e objetos é um exercício para lá de divertido.
A exposição está em cartaz no centro cultural do Banco do Brasil até dia 2 de agosto.

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