As emoções do ser humano são vastas, como um campo aberto que se estende ao infinito. Poucas áreas no planeta Terra atual correspondem a tal descrição das emoções, em um mundo aonde todo o território terrestre está praticamente mapeado tem-se o Ártico como área a ser desbravada. Essa imensidão branca e vazia, que serve de laboratório para cientistas do mundo todo, consegue dizer muito sobre um individuo com seus quilômetros de silencio.

Quando se trata de cinema muitos diretos prezam por não desenvolver um trabalho mais elaborado com os sentidos da audição ou visão, praticamente apenas lançando imagens ou sons nítidos para melhor desenvolver o filme. Em Soundtrack a dupla de diretores 300ml , Manitou Felipe e Bernardo Dutra, vinda originalmente do ramo publicitário, contam a história do fotografo brasileiro Cris (Selton Mello) que vai ao Ártico em busca de retratar em suas fotos as sensações que ele sentiu no momento da captura de imagens, para tanto ele se junta a uma equipe de pesquisadores.

Não é a primeira vez que um cineasta tenta emular uma sensação por meio do audiovisual, Terrence Malick com seu Árvore da vida é um exemplo, e aqui eles mantém o exemplo de como trabalhar com a edição de som e fotografia. Os constantes planos abertos mostrando o horizonte inóspito ou a noite com uma total escuridão combinado com o som de correntes de ar em circulação ou até mesmo o silencio esmagador criam a imersão necessária de apenas existir em uma pequena parcela do cenário.

Selton Mello entrega um protagonista interessante, obcecado por sua arte e destoante do resto do grupo formado por cientistas, mérito do ator saber desenvolver o papel em um ritmo não muito intenso. Ralph Ineson por outro lado entrega um pesquisador muito mais intenso que o protagonista, o cansaço resultante do isolamento está constantemente estampado no seu rosto e em seus momentos de atrito com o colega brasileiro Ineson entrega algo que não cai no já esperado “surto de raiva padrão e calculado”, mas sim, muito mais voltado para essa construção de cansaço e frustração do personagem, muito parecido com sua atuação na parte final de A Bruxa.

Por fim, Soundtrack é mais um triunfo do cinema brasileiro. O trabalho realizado pela dupla 300ml se mostra como um ótimo estudo do que é a arte e o ato de cria-la para o artista. O roteiro coeso, em sua maior parte, propõe a reflexão sobre quem o individuo se mostra quando isolado ( não precisando cair no clichê do surto de O Iluminado), tudo isso apoiado pela boa interpretação do Selton Mello e pelo trabalho intenso de Ralph Ineson. Entretanto, acima de qualquer enredo, esse filme é inteiramente sensorial e seu maior mérito é tornar uma vastidão gelada e inóspita em um personagem ativo no enredo, cuja a atuação se traduz na excelente edição de som e na fotografia branca e fria.

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