O psicanalista Luís Marra traz as histórias de maneira literária e defende a ideia de que cracolândia continuará migrando, pois oferece falsa sensação de liberdade a pessoas de todas as classes sociais. “Crônicas do Crack” será lançado dia 17 de agosto.

Por alguns dos relatos é possível perceber que o Crack é uma droga muito mais democrática do que se acredita, mas ainda assim analisando as estatísticas da droga, principalmente em se tratando da população de rua usuária de Crack, os números são muito diferentes. Indicam uma população muito maior de pessoas com baixos índices de escolaridade, vindo de vínculos familiares e sociais desgastados, de baixa e até mesmo nenhuma renda e que são, em sua maioria, negras. A que você acha que se deve essa discrepância de dados? Qual a importância de expandir a noção de quem é esse usuário?

LM: A pergunta é muito boa e a resposta é um tanto difícil. O principal motivo diz respeito a um problema geral da estatística – a relação crucial entre amostra e universo. É evidente que existem ótimos modelos matemáticos e probabilísticos para isso. No caso do crack, especificamente, e no caso dos chamados dependentes, as amostras colhidas costumam ser feitas nas tais “cracolândias”, onde existem muitos usuários e dependentes. No entanto, tais amostras não são confiáveis quando se tem em mente elucidar o universo dos usuários e/ou dependentes. Na verdade, não sabemos quantos usuários e/ou dependentes existem nem ali na esquina, nem em São Paulo e nem tampouco no Brasil. Todas as estatísticas já feitas são aproximativas. Estima-se uma determinada população, e tais estimativas variam muito dependendo do viés e até mesmo da posição ideológica de quem recorre a uma estatística. Quanto ao fato de nas tais “cracolândias” haver uma predominância de pobres, de excluídos, de negros, ou de afrodescendentes, isso é fato, mas não contribui muito para responder à pergunta que contemple o universo estatístico. Por quê? Porque nas cracolândias existem muitas pessoas – talvez a maioria – que não são dependentes de crack. Juntem-se os moradores de rua, os mendigos, os apenas usuários, os inúmeros alcoolistas contumazes, os pequenos traficantes etc e tal, e tem-se, possivelmente, uma maioria bastante heterogênea. Tudo acaba que nem no ditado popular: “farinha do mesmo saco”. Portanto, sempre que são feitas estatísticas a respeito de dependentes de crack a partir de amostras de “cracolândias”, o resultado não é muito confiável. Eu, finalmente, acrescento o seguinte. Com certeza o crack é “democrático”, não poupando nem classe, nem raça, nem riqueza, nem cultura. Existem muitos dependentes que jamais pisaram os pés numa “cracolândia”. Muitos usuários e/ou dependentes não são pobres. Há os famosos. Mas não tenho ideia de quantos ricos ou abastados ou famosos existem. Talvez os pobres sejam a maioria. Digo, talvez, pois não tenho certeza. Já conheci dependentes de alto nível e de curso superior, no entanto não disponho de estatísticas a respeito deles. Em resumo: a discrepância de dados não é por falha estatística, não é pelo método matemático, mas sim pela colheita de dados. Finalizo dizendo que, para se expandir a noção de quem é usuário, é preciso ir muito além da estatística. É preciso desconstruir muitos preconceitos e mitos a respeito do crack. É preciso abrir os olhos e ver de verdade.

Outra informação muito diferente daquilo que costumamos ouvir, presente na narrativa do seu trabalho, é sobre o por quê de as pessoas entrarem pro crack. Aparentemente não existem fatores determinantes para grupos de risco, ou “portas de entrada”, como muito comumente ouvimos quando se trata de dependentes químicos. Aparentemente há sim uma diversidade muito grandes de histórias pessoais. Com tantos relatos e tantas pessoas que você conheceu e ouviu foi possível traçar alguma semelhança entre esses perfis?

LM: Fatos ou fatores determinantes para dependência de crack não podem ser identificados com segurança quando generalizamos demais. Por outro lado, existem, com certeza, vulnerabilidades, e existem suposições factíveis de que algumas vulnerabilidades tenham até uma base genética, mas fora de qualquer determinismo genético. Quanto às tais “portas de entrada”, elas são várias, das drogas lícitas às ilícitas, não havendo, portanto, uma só “porta de entrada”. Em geral, o indivíduo crackeiro não costuma começar no crack. Pode começar no álcool, tabaco, maconha, cocaína “farinha” etc. A diversidade das estórias pessoais é impressionante e vai muito de encontro aos estereótipos criados a respeito do “nóia zumbi”, ou vai muito além da estória tão repetida de que “começa com maconha”. Se é possível traçar alguma semelhança no meio a tantas dessemelhanças quanto às estórias, creio que seja um perfil adictivo embutido mais na personalidade, mais na estrutura psíquica do indivíduo do que na ação da droga, no caso, o crack. É claro que o abuso do crack pode levar a uma rápida dependência, contrariando o que acabei de escrever. No entanto, as pessoas que realmente ficam dependentes costumam ter certas características, ou melhor, costumam ter certas co-morbidades anteriores ao abuso da droga. Ou até não teriam as tais co-morbidades e sim precisamente isso que chamo de “dependência intransitiva”, ou seja, uma condição de dependência como marca pessoal do indivíduo e uma dependência que não pressupõe necessariamente um determinado objeto do desejo, a exemplo de uma droga determinada. Talvez seja uma característica comum a essas pessoas que elas, quase todas, troquem a satisfação imediata com a droga empregada como um fim (como no uso social) pela droga empregada apenas como um meio e cujo fim é sempre postergado, ou nunca é totalmente alcançado (o tal “pote de ouro no final do arco íris”). Eu diria que são pessoas muito inquietas, muito perturbadas, e cuja ânsia por uma “brisa” faz com que sejam vulneráveis a drogas pesadas. Observo aqui que essa inquietação não é necessariamente um defeito. Pode até ser uma qualidade. Todavia, essa não é uma regra assim tão geral. Há exceções. Há casos em que uma dependência de crack surgiu numa pessoa que talvez não trouxesse vulnerabilidades específicas. Surgiu a partir de uma conjunção de circunstâncias, infelizes ou indesejáveis, até mesmo fortuitas. Lembro aqui que ninguém é totalmente protegido de uma dependência de droga – lícita ou ilícita. A partir de um condicionamento determinado, e num meio propício, todos nós acabamos sendo vulneráveis. Isso dificulta uma definição abrangente, dificulta traçar um perfil determinado que contemple todos os usuários e/ou dependentes.

A busca de vínculos familiares e sociais é um fator muito valorizado quando se pensa em ações positivas para que a pessoa consigam deixar o Crack. Mas ao mesmo tempo, nem sempre esses vínculos existe. Muitas vezes esse usuário já vem de vínculos sociais e familiares desgastados. Qual a maior dificuldade que essas pessoas têm na hora de se reinserir na sociedade?

LM: É uma grande verdade que a esmagadora maioria dos usuários tem vínculos familiares altamente disfuncionais, se é que se pode falar em “vínculos”, pois, muitas vezes, tais “vínculos” nem existem. Acontece que esse desgaste de vínculos vem muito acompanhado de outros desgastes, a exemplo da pobreza ou da miséria no caso daqueles usuários no andar de baixo de tudo, no porão da sociedade. Nesse caso, qualquer reinserção social e/ou familiar esbarra nas limitações dramáticas de natureza econômica. Um exemplo disso são os dependentes sem emprego, ou sem renda – o velho “Lumpenproletariat” tão citado por Marx como sendo contra revolucionário – a viverem de “bicos”, de pequenos expedientes, de malandragens, ou até de furtos. No outro polo estariam os que têm emprego ou suporte financeiro familiar. Mesmo nesses casos, costuma haver muita disfuncionalidade, inclusive em famílias abastadas. E, se nesses casos, a reinserção parece fácil, não é, porque o suporte financeiro, por vezes fácil ou irresponsável, costuma irrigar um ócio perverso e uma sensação arrogante de poder. Como ocorre com certos adictos “filhinhos de papai” a viverem pulando de clínica em clínica, e cujas famílias pagam os tubos para se verem livres desses pimpolhos. Tanto os riquinhos quanto os pobretões têm grandes dificuldade de reinserção. Todavia, há exceções notáveis. Há os que voltam a trabalhar normalmente, como eu os conheci. Digo mais: não tenho como embasar minha afirmação, mas creio que os que são mais facilmente reinseridos sejam os de menor poder aquisitivo, à exclusão, é claro, dos completamente miseráveis.

Uma coisa que é muito reproduzida diz respeito ao abrigo, à moradia. É comum ouvir que muitas vezes essas pessoas não querem sair de rua e ir para o abrigo ou até mesmo fazer o tratamento. E de reforma ressonante isso é muito mal recebido pela sociedade que não entende, porque pra gente, obviamente, qualquer lugar é melhor que a rua. O que causa essa resistência? Ela existe?

LM: A questão da moradia é crucial, porém muito condicionada à qualidade da tal moradia. É, pois, bem sabido que muitos moradores de rua – usuários ou não de drogas pesadas – não queiram deixar as ruas para ficar nos albergues, porque o ambiente nos albergues costuma ser muito “barra pesada”. E é mesmo. Este é um primeiro fator. Outro fato é que a vivência nas ruas também traz algum benefício relativo, pois há, com o passar do tempo, uma adaptação a um certo modus vivendi, de tal maneira que muitos não desejam trocar a rotina já acostumada nas ruas por uma novidade incerta em moradias duvidosas. Para pessoas que conhecem o conforto e nunca moraram nas ruas, parece óbvio que qualquer lugar seja melhor do que a rua. Acontece que isso não é verdade. Mesmo na cidade de Nova York, que tem uma grande população de rua e onde faz muito frio no inverno, uma grande parte dos moradores de rua prefere ficar ao relento e se enfiar à noite no metrô do que permanecer nos albergues que também lá, em Nova York, são “barra pesada” e, não raramente, são dominados por gangs ou máfias.

Considerando toda o seu conhecimento do lado humano do crack, como você vê as ações de internação involuntária? E como você acha que elas impactam no problema?

LM: A internação involuntária pode ser necessária sob as seguintes condições: quando o indivíduo oferece risco de vida a si mesmo ou a outrem, ou quando todas as outras tentativas de tratamento já foram esgotadas e um motivo imperioso persiste. No conjunto das internações, as involuntárias são, seguramente, uma pequena minoria. Quando se tornam maioria é porque há uma gritante e absurda distorção de critérios. Para ser mais franco: quando se propugna abertamente internações involuntárias, existe, por detrás, uma proposta higienista, quase sempre acobertada por ignorância, preconceito ou maldade mesmo. Hoje em dia, por mais que a dependência de crack possa ser grave e dramática, não há como defender racionalmente internações involuntárias indiscriminadas. Quem diz que todo dependente de crack sofre igualmente de uma mesma “doença” e precisa ser internado à força é movido ou pela ignorância crassa ou pela má fé.

Pelo que se pode perceber há claramente uma linha em todo o trabalho que passa pela desconstrução dos estereótipos para os usuários de crack, mas que podemos esticar em muitas circunstâncias para os usuários de drogas de maneira geral. Qual a importância da desconstrução dos estereótipos que cercam o universo do usuário de Crack?

LM: A desconstrução de estereótipos é, digamos assim, um trabalho hercúleo e, ao mesmo tempo, um trabalho de formiguinha. Sem tirar a absoluta importância desse tipo de trabalho, eu ainda diria que é um trabalho difícil, essencial e fundamental. Por quê? Porque abordar, investigar, tratar, recuperar, reinserir – tudo isso, enfim, só se torna possível quando a gente consegue se despir de inúmeros preconceitos ou estereótipos. Não é tarefa fácil, e mesmo para nós, que estamos na lida e na área, mesmo para nós não é nada simples nos desvencilharmos de certos preconceitos e desconstruirmos estereótipos. Mesmo porque o grande problema a respeito dos estereótipos sobre usuários de crack é que os estereótipos quase sempre dizem uma pequena verdade. O “nóia zumbi” realmente existe. O caso mais escabroso existe. O caso mais criminoso também existe. No entanto, o todo, o universo, desfaz várias mentiras contadas a partir das partes isoladas. Portanto, essa desconstrução de estereótipos, que, aliás, é fundamental e necessária, precisa ser feita com muito critério e com muita responsabilidade. Quando olhamos para a população afetada pelo crack, não podemos fugir de algumas generalizações, não podemos excluir o emprego de alguns modelos. Assim procede a medicina, assim procedem as ciências sociais, assim procede a psicologia. Mesmo assim, temos que individualizar os casos e as estórias, desconstruindo alguns casos específicos, para depois operar uma desconstrução mais abrangente.

O que diferencia o usuário de crack dos usuários das demais drogas? O que na experiência de uso do crack faz com que ele seja tão mal vista?

LM: O que principalmente diferencia o usuário de crack dos usuários das demais drogas é que a dependência de crack costuma ser rápida – obviamente nos indivíduos vulneráveis – e também a fissura pelo crack, quando realmente se instala, costuma ser extremamente intensa e desorganiza ou até mesmo pode desestruturar a vida do adicto. Eu costumo dizer que o maior problema da dependência de crack é a própria dependência. Isso não é uma regra para outras drogas. No caso, por exemplo, do tabaco, isso não ocorre. O pior da dependência do tabaco não é a dependência em si, porém os riscos enormes advindos da intoxicação crônica. A dependência de álcool pode ser muito intensa como dependência si, pode desorganizar a vida do usuário, mas fica bem abaixo da dependência grave a crack quando se trata de fissura, de busca infrene por gratificação. Finalmente, o motivo pelo qual a experiência de uso de crack é tão mal vista reúne duas vertentes: uma, social, que é consequência da imagem degradada dos tais “nóias” maltrapilhos ruminando nas cracolândias da vida; a outra vertente tem a ver com a intensidade dramática de algumas dependências individuais, que realmente infernizam a vida de familiares e criam uma atmosfera de medo ou pânico quando se fala o nome da droga chamada crack.

Os estigmas que envolvem o crack são muitos, a “mordida do vampiro”, a morte certa, a degradação, a desumanização. Você acha possível reumanizar essas pessoas?

LM: Realmente os estigmas envolvendo o crack são muitos. Há mentiras absurdas, totalmente absurdas, e veiculadas como grandes verdades, até mesmo por usuários ou dependentes. A metáfora da “picada do vampiro” é ótima para ilustrar o medo irracional que muita gente tem do crack, ou seja, a bobagem total de achar que um uso único precipita a dependência. É uma completa inverdade e sugere um medo beirando a magia mais primitiva. Outros estigmas vêm sendo construídos a partir de pequeninas verdades, ou mesmo de distorções gritantes, como o caso do estigma de que todos os usuários de crack morrem depois de pouco tempo. A grande maioria dos usuários e/ou dependentes de crack sobrevive muito mais tempo do que se imagina. Os que morrem cedo pertencem a certos redutos de alta periculosidade – a exemplo de alguns guetos ou cracolâncias – e são pessoas que vivem muito perigosamente, não se nutrem, quase não dormem, correm muito risco de serem assassinados ou de pegarem doenças oportunistas. O estigma da degradação deve uma parte ao estigma mais geral a respeito da “droga ilícita” como algo intrinsicamente mau ou demoníaco; mas deve outro grande quinão à imagem tão repetida a partir das visualizações das cracolândias, expondo populações andrajosas perambulando pelas ruas, como se fossem todos “farinha do mesmo saco”. Acontece que não são. Mas estigmas costumam se nutrir da lei do menor esforço e de um primarismo de raciocínio. Os estigmas criam verdades prontas que pegam, contagiam. Essa, aliás, é uma questão complexa e “cabulosa”, e tão “cabulosa” que torna difícil a tarefa de reumanizar essas pessoas. Eu diria que tal reumanização possa se dar mais facilmente em casos individuais. Como é fato sabido que uma parte grande dos usuários de crack não tem uma intenção, ao menos explícita, de tratamento, fica ainda difícil operar essa humanização a nível de saúde pública. Mas isso não quer dizer que devemos desistir. Devemos sim aprofundar muito as discussões sobre o que são realmente as drogas, devemos lutar pela total descriminalização das drogas (o que não significa legalização indiscriminada), devemos amplamente discutir o que são mesmo os tais drogados, o que é mesmo dependência química, e levando também em consideração algumas características positivas dos adictos. Levará ainda algum tempo para que a sociedade amadureça um pouco tais questões.

Que impacto você espera alcançar com o livro?

LM: Pretendo alcançar, a par do inegável desejo de reconhecimento da minha obra, algum impacto que ajude um pouco a descontruir tantos mitos e preconceitos. Gostaria muito que os leitores possam “viajar” nos meus relatos e nos textos adicionais de “making of”, de maneira a compreender que droga adicção não é sempre algo intrinsecamente mau ou perverso. Que há muita riqueza psíquica, existencial, ou até cultural, por detrás de muitas estórias até horripilantes de dependência de drogas. Não pretendo chegar a nenhuma conclusão final a respeito de um problema, e dele me resta a pretensão de apenas – com perdão da redundância – problematizar o problema. Trazendo à tona uma riqueza de detalhes para ir de encontro a essa costumeira massa de banalidades sobre um assunto tão importante nos dias de hoje. Sem falar da “pegada” literária que a maioria das crônicas tem, e sem quase nada recorrer à ficção. Em resumo: a realidade pode parecer mais ficcional do que a ficção.

DEIXE UM COMENTÁRIO

Please enter your comment!
Please enter your name here