Os filósofos antigos (Aristóteles e Platão) consideram inquestionável que o ser humano possui uma essência que o distingue dos demais seres. Essa essência, que muitas vezes chamamos de alma, nos difere de tudo que existe e construiu em nós a noção de superioridade, que nos distancia das demais formas de vida. Questionamos e tentamos entender a existência, nosso propósito no mundo, de onde viemos, para onde vamos. Qual a nossa essência, o que nos torna humanos?

A jornada de Deckard (Harrisson Ford), o Blade Runner (caçador de androids), nos apresenta, em 2019, ao futuro distópico de uma Los Angeles devastada, decadente, um mundo majestosamente criado, que tem como um de seus maiores méritos conseguir nos envolver em um universo de conceitos expandidos que, abordando as possibilidades desse futuro de uma humanidade em ruínas traz luz, na trajetória de seus personagens, às questões existenciais que sempre acompanharam a humanidade.

O mundo criado por Ridley Scott para sempre mudaria o cinema de ficção científica, as questões abordadas pelo filme têm sido debatidas e gerado controvérsias ao longo desses 35 anos. Dennis Villeneuve tem uma maneira muito peculiar de enxergar essas possibilidades de futuro e (re)cria em Blade Runner 2049 o conceito imaginado 35 anos antes por Ridley Scott, mas é ousado o suficiente, não só para trazê-lo de volta de modo surpreendentemente semelhante, mas para leva-lo adiante dando a esse mundo sua própria visão, assim como em A chegada (2016).

Ouvimos com muita frequência hoje em dia que “A humanidade fracassou”. Blade Runner 2049 é um grande reflexo desse fracasso e podemos perceber em detalhes que perdemos a guerra. Todas as batalhas foram perdidas. Mulheres, crianças, pobres, eternizados a margem dessa sociedade cercada de poluição, abandono e destruição, triste e sem vínculos emocionais.

Um filme impressionante, tanto, que é capaz de nos deixar temerosos pelo futuro que se aproxima, não só por ser visualmente assombroso, mas por usar do ritmo como uma ferramenta que aproxima a sua narrativa à sensação de um recorte da vida real, tomando seu tempo para contar a história sem pressa. Característica que é crucial para que toda a ambientação criada pela narrativa seja capaz de envolver o expectador, não só no universo apresentado, mas nos personagens e suas buscas.

Blade Runner foi o primeiro filme que me fez perceber que havia mais para além daquilo que eu tinha conseguido compreender, o primeiro filme que me fez questionar o que eu tinha visto e ansiar por vê-lo vez e outra e outra, para que quem sabe assim eu conseguisse perceber coisas que não tinha percebido ainda. Foi o primeiro filme que me fez pensar sobre a minha própria existência e sobre o que significa ser humano.

Magistralmente, Dennis Villeneuve consegue incutir a esse filme a mesma sensação de que há mais, muito mais. A riqueza de detalhes e significados em cada frase, em cada quadro criado, a impressão de que nada, absolutamente nada, está ali por acaso. A certeza de que há muito mais do que somos capazes de perceber sem revisitá-lo. E, mais uma vez, a luz jogada sob a existência nos incita a pensar criticamente sobre nosso lugar no mundo e a nossa relação não só com o próprio planeta e o nosso futuro, mas sobre como nos relacionamos com a vida, não só a nossa.

A essência precede a existência? Possuímos, antes mesmo de existirmos, uma essência, uma alma, que nos define e nos diferencia? “O mundo é construído sobre um muro que divide espécies”.

Enquanto esse conceito norteia a vida e coloca o homem no controle do mundo por ter sido escolhido divinamente antes mesmo da criação, Blade Runner desconstrói essa ideia quadro a quadro, enquanto, mesmo na busca pela alma nos mostra que é na existência que se faz a essência. A partir da existência singular de cada um é que nos tornamos indivíduos e que essa essência se faz na nossa singularidade, nas nossas escolhas. O que nos define como humanos talvez seja o fato de sermos fundamentalmente livres para escolher os caminhos da nossa própria existência. E essa liberdade é o muro que separa o mundo.

A maior busca seja talvez pela Liberdade para escolher como vamos viver e como vamos existir, para definir nosso próprio propósito. Blade runner, replicante, humano, animais…sua existência é seu grande elemento definidor, exista primeiro e eu te direi quem és.

Na jornada dos heróis, Ryan Gosling, com uma atuação esplêndida, nos conduz por esse caminho enquanto busca resolver um mistério desenterrado por ele e acaba, na verdade, nos permitindo acompanhar a construção desse indivíduo enquanto ele ganha consciência e liberdade e, na busca de descobrir a verdade, acaba tornando-se quem é, ainda que não se dê conta disso. Enquanto Harrisson Ford, como Deckard, esplendidamente nos mostra que a liberdade e as escolhas que fazemos, são na verdade nossa maior angústia e que, no fim, estamos condenados a ser livres e viver com a existência que escolhemos. “Ao tomar uma decisão, percebo com angústia que nada me impede de voltar atrás. Minha liberdade é o único fundamento dos valores. ” (Sartre)

Desde o rico design de produção e visuais estupendos, Blade Runner 2049 é um filme em que cada pequeno detalhe foi cuidadosamente pensado, em que se faz de extrema importância a atenção. Com atuações inspiradas, não só dos protagonistas mas de todos no elenco: Robin Wright (House of cards), Dave Bautista (Os guardiões da Galáxia), Ana de Armas(Cães de guerra), Mackenzie Davis (Black mirror – San Junipero), todos, que assim como os demais elementos do filme são repletos de nuances que carregam detalhes da história e dos significados por trás de cada cena. Um filme que, assim como o primeiro, vai levantar muitas dúvidas, questões e teorias e, provavelmente, daqui há 35 anos muitas dessas questões continuarão sem respostas.

“Primeiro a vida, depois a definição
Primeiro a existência, depois a essência
Primeiro a liberdade para viver, depois o resultado da gestão da existência. ” ( Professor Clóvis de Barros Filho)

 

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