O gênero de assalto, assim como o de ação, acaba, por vezes, sendo vazio emocionalmente. Puro entretenimento, pouco realístico, ou de realidades muito distantes, que nos faz afastar de suas questões e engajar apenas superficialmente com sua história, onde muitas vezes tudo parece muito absurdo, até cômico.

Já na primeira cena, enquanto a câmera se aproxima e entra no consultório em que Nick Nikas, vivido por Bennie Safdie, conversa com um psicólogo do serviço social podemos perceber que existe uma aproximação, que difere do que estamos acostumados. Ele responde uma espécie de teste psicológico que parece querer avaliar o nível de engajamento e compreensão dele do mundo que o cerca, a proximidade da câmera, as perguntas, o olhar de Bennie Safdie e sua fala lenta, nos deixa imediatamente desconfortáveis. O consultório é invadido por um outro homem agitado, que acaba instigando o jovem Nick Nikas contra o psicólogo e o tirando de lá.

Mesmo ciente de que Robert Pattinson vivia o protagonista, no momento que ele adentra a sala do psicólogo falando rapidamente e com trejeitos nervosos, não fui capaz de identificá-lo de imediato, levei alguns longos segundos para reconhecer o ator e fui de imediato pega de surpresa com o quão investido ele estava, quase irreconhecível, como Connie Nikas.

Connie Nikas, é nosso fio condutor, nos levando por esse dia em sua vida em que depois de tirar de tirar o irmão do psicólogo, nós o vemos fazendo de tudo para resgatá-lo de uma confusão em que ele mesmo o meteu. A singular história de um assalto, que não só, não deu certo, mas que as coisas dão erradas de um maneira realista que nos engaja.

Geralmente o cinema nos apresenta Mocinhos e vilões, dentro desse escopo as variações acabam por ser, muitas vezes, limitadas. Temos os vilões que que são protagonistas, mas com os quais se cria uma identificação por sua busca pela redenção ou, porque no fundo são bons e os vilões que odiamos porque são a personificação do mal.

Bom comportamento é um filme muito interessante por abordar uma faceta realista do que seria um possível vilão, sem grandes gestos vilanescos, sem um dente podre e perna de pau, ou qualquer deformação que o identifique como tal. Connie é o vilão, não em busca de redenção, mas que passeia por sua vida fazendo escolhas que nos chocam como expectadores, mas que para ele parecem tão naturais e dentro de contexto que ao mesmo tempo que pensamos “ Não, ele não vai fazer isso! ”, quando ele o faz acaba sendo o único caminho realista e parece tão óbvio para ele que o surreal seria se ele tivesse algum código moral.

A única identificação emocional e moral que ele parece ter é com o irmão, mas, ainda assim, isso não o redime e não procura redimi-lo, já que o seu próprio bem estar está acima, a princípio, até ao do irmão.

Um filme para se tirar o chapéu pela coragem do roteiro em manufaturar um personagem dessa natureza e expor sua trajetória de forma crua, em sequências de ação, diálogos inacreditavelmente sem limites morais, na violência que assim como todo o resto, não parece desproporcionar mas sim desvelada, na maneira que o personagem usa as pessoas para atingir o que precisa sem ser desproporcional, mas simplesmente natural que o faça.

Ao contrário do que costuma ser interessante em construção de personagens, nada é complexo, simplesmente, é o que é, sem exageros ou grandes explicações. E que se encaixa perfeitamente na visão desse “submundo” dos irmãos Safdie, soturna e impaciente.

Um outro elemento que funciona quase como um protagonista, de tão intenso e importante que é para a construção da narrativa, é a trilha. Daniel Lopatin acrescenta ao filme um som orgânico que reverbera na boca do estômago ao longo do filme todo e deixa a experiência ainda mais incômoda, numa espécie de simbiose com os demais elementos, principalmente com a direção, e por vezes parece um eco do pensamento de Robert Pattinson que nos desafia constantemente.

Bom comportamento é um filme que tem um frescor sombrio e incômodo na crueza de abordar e se aproximar dos personagens e o desenrolar de suas escolhas. É uma experiência, com certeza, diferente do que vemos na maioria das vezes e só por isso já valeria a experiência. Mas vale por toda a construção do roteiro, a direção, a trilha e por uma atuações, surpreendentemente, excelentes de Robert Patison e Bennie Safdie.

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