Depois de co-dirigir produções de sucesso ao lado de Walter Salles, como Terra Estrangeira (1995) e Linha de Passe (2008), Daniela Thomas estreia está semana seu primeiro longa solo, Vazante, que, após passar – e gerar polêmica – pelo Festival de Brasília, aborda dois assuntos que ainda possuem feridas abertas na sociedade: a questão racial e o machismo institucionalizado. Porém, o roteiro não acerta o tom na construção dos temas em questão.

O filme se passa em uma fazenda na cidade de Vazante, Minas Gerais, em 1821, quando a escravatura já está em seus últimos suspiros. No local, brancos, negros nativos e recém-chegados sofrem com a incomunicabilidade causada pelas tensões racial e de gênero em uma já decadente região dos diamantes. A primeira empreitada de Daniela Thomas no comando de um longa acumula acertos e boas ideias. A reconstituição de época é muito bem executada, fotografia arrebatadora – a escolha do preto e branco seco e contrastante dá ares de clássico às cenas -, a alternância de planos estáticos nas internas e em movimento nas externas ajuda a dar ritmo à história.

Porém, um dos principais pontos do trabalho da diretora é justamente que tem gerado muito polêmica ao redor do longa. O enredo acompanha a rotina e os hábitos de, basicamente, seis personagens principais, mas estabelece o protagonismo nas personagens brancas, fazendo com que as personagens negras se tornem muito subjetivas, quase abstratas, como uma representação do conceito de escravidão, não tendo suas personalidades desenvolvidas ao longo da história. Provavelmente, um nome que se sobressai é o de Fabrício Boliveira, como Jeremias, um capitão-do-mato – um papel que poderia ser muito mais interessante se o ator tivesse mais camadas para trabalhar.

Daniela declarou em texto publicado pela Revista Piauí este mês que a intenção era usar sua visão de mundo para contar histórias que ouvira dos antepassados e não fazer qualquer tipo de militância. A diretora também afirma saber que seu filme não é o que o movimento negro quereria ver atualmente. Ela também pede que o longa seja assistido, analisado e debatido pelo seu valor artístico – que, de fato, é alto, pois é uma produção muito bem realizada, com imagens belíssimas e fortes. Mas, estuda mais a personalidade do explorador do que a do explorado, não há um equilíbrio entre as duas partes.

Já o segundo tema abordado por Daniela consegue ser muito mais desenvolvido e costurado à história. A diretora utiliza o matrimônio forçado da jovem Beatriz (Luana Nastas), de 12 anos, com o quarentão Antônio (Adriano Carvalho), que trata a esposa como uma propriedade, para mostrar que o machismo não foi inventado nos dias de hoje, ele já existe há muito, apenas não era contestado. No fim, a disparidade do tratamento dado aos dois assuntos deixa a sensação de que Daniela, por ser mulher, soube como falar sobre o machismo, mas sendo uma pessoa branca, não conseguiu explorar a questão racial. Mas, sem dúvida, é um filme que deve ser assistido e debatido – com civilidade, como a própria diretora pede -, nem que seja por seu valor artístico – o que não é pouca coisa.

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