O que é o momento? O que é o agora? Até onde o passado de fato existe e está distante de nós? O filme de João Moreira Salles desafia as fronteiras do tempo buscando no passado a intensidade que diretamente nos conecta ao presente e à vida. Quais são os momentos que nos marcam, nos fazem seguir diante? E como (sobre)vivemos, uma vez que a chama que nos consumiu e nos comoveu se apaga?

Os arquivos familiares são, mais uma vez, matéria prima para um estudo que vai além do pessoal e que ganha nessa mesma pessoalidade do olhar uma profundidade indiscutível. As imagens gravadas pela mãe, na temporada que viveu na China em 1966 dão início ao estudo desses momentos recortados no tempo em que somos felizes, somos intensos e a noção de que esses momentos se esvaem. Levantam-se vários questionamentos sobre como passamos da alegria para incapacidade de ser felizes e, apesar de abstrato e difícil de materializar, o filme, linda mete costurado na edição, carrega o peso dessa mudança, dessa ausência.

De acordo com o diretor, uma das reflexões que o filme tenta fazer é olhar de perto como as coisas são filmadas, de que maneira a imagem é uma consequência do contexto político em que ela é realizada. Como o regime em voga reflete na imagem, que possui pistas do contexto por trás de sua realização, sobre como era possível filmar, o sentimento e o clima por trás de cada circunstância.

É possível ao comparar as imagens perceber as diferenças de posturas dos registros. Enquanto, por exemplo, há proximidade e estabilidade nas imagens do “Maio Francês”, que, apesar da violenta repressão policial possibilitava ainda uma proximidade, por se tratar de uma democracia, há nas imagens da Tchecoslováquia, principalmente após a entrada dos soviéticos, o posicionamento por atrás de janelas, por trás de cortinas, distanciando essas imagens da ação, refletindo assim o medo do regime instaurado.

Um momento emblemático no filme é o de imagens do enterro de um jovem que teria se ateado fogo contra a falta de reatividade do seu povo frente ao momento vivido. As imagens remetem ao uso político dos mártires, assunto que haveria surgido em conversas de João Moreira Salles com Eduardo Coutinho, um dos grandes gênios da filmografia nacional. Questiona-se sobre como se usa esses mortos politicamente, como pessoas morrem como pessoas e outras como símbolos, sendo utilizadas como instrumento político.

No Intenso Agora é um ensaio político que incita pensar sobre a felicidade, sobre a nossa relação não só com o país e o governo, mas com a vida, um filme incrivelmente delicado, que olha profundamente para essa confluência entre o social e o pessoal. Uma aula, não só sobre política sobre a vida.

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