Por: Thales Valoura

Vivemos num mundo binarista: ou você tem visão política de direita ou de esquerda; homem ou mulher; é isso ou aquilo; você está certo ou errado. Esse modo de pensar o mundo não deixa enxergar todos os vários seres que podem morar dentro de um. Não faz questão de entender que podemos transitar entre vários questionamentos sem sermos contraditórios. Invalida todos as opiniões contrárias à sua. Há vários certos dentro de um errado, bem como vários errados dentro de um certo. No meio do certo e do errado há o “entre”. Somos múltiplos, plurais, sincréticos.

Digo isso pois esquecemos o quão difícil é entrar em um diálogo e lembrarmos da pluralidade citada. Tendemos a entrar em discussões infinitas para, numa brincadeira de forças, ver quem leva a melhor e definir quem está errado. A peça “O filho do presidente” tem como proposta trazer este diálogo onde há muitas perspectivas e opiniões diferentes sobre um mesmo tema: liberdade de expressão. Como formas de justificativas para fundamentar as opiniões, a peça começa a ramificar tratando de várias questões pertinentes, como a sexualidade, fundamentalismo religioso, privacidade e a lutas pelos direitos das pessoas LGBT.

A montagem é baseada na peça “Now of Later” de Cristopher Shinn, dramaturgo americano que escreveu o texto há 10 anos. Apesar de uma década, ele é profundamente atual no que diz respeito a direitos humanos e políticos, religião e liberdade. A peça é ambientada em um quarto de hotel do filho do candidato a presidente pelo Partido Democrata americano no dia de apuração dos votos. John, gay universitário, sai no dia anterior para uma festa universitária vestido de Maomé junto com seu amigo Matt, vestido de um pastor evangélico americano. No dia da apuração há fotos e vídeos dos dois na internet e tanto seu pai, candidato a presidente, sua mãe e comissão executiva do Partido ficam preocupados e temerosos diante da repercussão que as imagens podem ganhar e acabar descreditar a candidatura do pai Sr. John, interpretado por Anselmo Vasconcellos. Neste cenário, a peça traz diálogos excelentes com uma carga dramática forte, intercalada com algumas doses de humor.

Misturado a estas discussões, a peça também aponta tantas outras questões que permeiam e transitam a vida da família, como a sexualidade de um filho de uma pessoa pública, da privacidade familiar negada, de relacionamentos homossexuais, suicídio. Apesar de falando assim parecer ser uma montagem que quer falar de tudo ao mesmo tempo, mas que no fim tudo de forma superficial, na peça, dirigida por Marcus Faustini, todas as questões levantadas são conexas e bem apresentadas, além do mote principal do texto ser o poder da argumentação.

Saí da peça com um entrave intelectual, pois concordava com as argumentações apresentadas por sua família e assessores do partido quando apresentam um pedido de desculpas a ser feito publicamente por John, mas também concordava com as ideias que ele apresentava para não fazer tal pedido de desculpas, sendo apoiador da luta pelos direitos LGBT e das mulheres. Diante deste embate, ficou ainda mais claro para mim o quanto uma questão há vários lados através de diferentes perspectivas, porém ficou mais difícil achar um lugar neutro onde não há margens para ofensas e preconceitos. Quando digo que somos feitos de pluralidade e multiplicidade não é à toa.

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