“Que falta nesta cidade?… Verdade.
Que mais por sua desonra?… Honra.
Falta mais que se lhe ponha?… Vergonha.”

Gregório de Matos se aportasse pelas terras brasileiras nos dias de hoje, facilmente, se sentiria em casa. Ele é considerado o primeiro poeta do Brasil e apesar de sua poesia se manifestar em diversas formas, lírica, erótica, religiosa, foi pela satírica que ficou famoso, criticando a situação econômica da Bahia e o então governador Antonio Luis da Camara Coutinho.

A peça faz um resgate importante dessa emblemática figura da literatura nacional. O texto de Adaílton de Medeiros nos apresenta o homem, cheio de conflitos e em transformação. Nascido na alta classe, é na sua decadência que encontra a voz que iria eternizá-lo.
Bebida, Amigos, Mulheres, dinheiro, ou a fata dele. A peça nos leva de encontro ao homem, rodeado pelas questões que o consumiam. O gregório de Matos construído por Licurgo é um homem complexo e estar à frente de seu tempo parece ser um peso enorme capaz de nos quebrar e o personagem aparenta carregar em sua alma mais do que é capaz de suportar.

Andrea Mattar, com sua Ana, se conecta ao que há de carnal, a paixão, não só física, mas a intensidade de viver e as escolhas que ele precisa fazer. Assistir Gilson de Barros, como uma espécie de Mefistófeles, é um presente. Seu personagem acrescenta uma graça e leveza ao espetáculo, contrabalanceando com o peso da alma de Gregório, sem se saber exatamente em momento algum quais são suas verdadeiras intenções.

O texto e a montagem são incrivelmente atuais, nos fazendo pensar todo o tempo na situação atual da cidade e do país, de maneira geral. É impressionante o quanto o texto de Gregório pode ser transportado no tempo e toda a produção da peça é muito feliz ao realizar esse trabalho de forma tão certeira.

Há, até mesmo, o cuidado da produção em pegar do texto o que já não condiz mais com a maneira como enxergamos o mundo e ressaltá-las, deixando claro o quanto nos distanciamos de algumas posturas e opiniões. Mas ao mesmo tempo é impressionante o quanto os poemas satíricos e o roteiro da peça parecem ter sido feitos sob medida para o momento que vivemos. Não sei se fica a sensação de que estamos regredindo ou a certeza de que, de fato, pouco saímos do lugar.

Belas atuações e um texto atual e cativante, O Boca do Inferno é dessas peças que faz a gente pensar sobre a vida e o mundo que nos cerca e vale cada minuto da experiência.

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