Já imaginou se Busca Implacável, ao invés de estrelado por Liam Neeson em uma procura incessante por sua filha, fosse protagonizado por Jackie Chan? Essa é basicamente a ideia de O Estrangeiro, só que ao invés de procurar pela filha, Quan (Jackie Chan) está em uma jornada implacável pelos assassinos da filha. Um dos maiores símbolos chineses relembra que sabe fazer um bom drama, e ainda conta com a presença de Pierce Brosnan para completar o elenco principal.

Quan (Jackie Chan) é o dono de um restaurante chinês em Londres. Após um ataque de um grupo terrorista irlandês, ele tem sua vida devastada ao perder a filha. Ele já havia perdido a esposa e outras duas filhas fugindo de terra-natal em Cingapura, e a filha mais nova era a última pessoa que ele amava. Ele não consegue deixar o assunto nas mãos da polícia local, e vai em busca de vingança por suas próprias mãos chegando até o vice-primeiro-ministro da Irlanda (e ex-membro do grupo terrorista irlandês IRA) Liam Henessy (Pierce Brosnan). Enquanto Quan não receber os nomes dos responsáveis pelo assassinato de sua filha, ele não deixará ninguém em paz e é capaz de qualquer coisa para atingir seus objetivos.

A solidão e dor causada por ataques terroristas é um tema extremamente relevante nos dias atuais. Esta adaptação baseada no best-seller “The China Man” de Stephen Leather aborda o tema com cuidado no começo, mas acaba normalizando as atitudes de Jackie Chan ou mostrando-as como as que deveriam ser adotadas (por exemplo passar por cima da operação da polícia em prol de sua vingança pessoal). Do meio para o final do longa, é difícil não sair questionando as atitudes do protagonista, que acaba ele próprio se tornando um terrorista por definição, chegando ao ponto de explodir diversas bombas como “aviso” e pedido de atenção. Isso faz o público perder o foco em ficar com pena do personagem para simplesmente se assustar com a posição que toma.

É difícil também deixar de lado o fato de que Quan é supostamente um dono de restaurante há pelo menos dezesseis anos, mas aparentemente jamais deixou de treinar ou relembrar tudo que aprendeu quando era militar pelo governo americano. No auge de seus 60 anos, o personagem de Jackie Chan consegue deixar grupos de homens desacordados e seriamente machucados. Além disso, há uma certa habilidade MacGyver do personagem para produzir armadilhas e bombas explosivas caseiras.

Quem tem que lidar com a ferocidade de Quan é Liam Henessy. A vida conturbada do homem do governo é um emaranhado de corrupção, desconfiança e segundas intenções. A história poderia facilmente tentar contar a jornada de ambos os homens e assim dar uma consistência maior ao personagem de Pierce. O que acontece, no entanto, é uma confusão entre quem é vilão e quem é herói da história, em que os dois personagens trocam diversas vezes de “categoria” dependendo do que mais é revelado e do quão violento fica Quan com o vice-ministro irlandês.

Pierce Brosnan teve que aprender um sotaque irlandês para o papel que interpreta e se sai com um ex-agente secreto 007 deve sair: ele cumpre a missão na encolha, perdendo os holofotes para a vitalidade de Jackie Chan, que apesar de silencioso e misterioso ainda demonstra toda a sua capacidade de atuar em algo que não seja comédia, como fez por um bom tempo.

A dificuldade de se resumir um trabalho vindo de uma obra literária em duas horas no cinema não é novidade nenhuma. Essa dificuldade fica clara em O Estrangeiro, deixando de lado justificativas essenciais para os atos do protagonista e uma contextualização do passado de Liam. De qualquer maneira, para quem curte filmes de perseguição implacável homem versus homem, certamente encontrará algum prazer em ver Jackie Chan no seu auge atlético e interpretativo.

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