O ganhador do Prêmio Literário da Fundação Cultural do Pará em 2015 “O Terraço e a Caverna” traz dualidade em uma narrativa poética. O livro de autoria de Maurício Limeira conta a história de Quinha e Paco. Ela tem 11 anos e mora com a família em uma cobertura da Zona Sul do Rio de Janeiro. Paco tem 12 anos, também mora com a família, mas em um buraco abandonado do metrô carioca depois que o tráfico local os expulsou da comunidade em que viviam.

Ela sofre de Síndrome das Pessoas Inexistentes, ou seja, não enxerga nenhum outro humano, mas pode ler, e tem seu gato (que fala, em sua mente) para lhe fazer companhia. Já ele, um cadeirante que está confinado ao mundo do que chama de “caverna”. Os dois estão desacreditados dos humanos em presos em um espaço próprio e reduzido. Por meio da internet, se encontram em uma rede social, e desta forma, o destino revela os mistérios da vida para os dois.

Há diferenças e igualdades entre as personagens e suas experiências com o mundo e o autor passa por esses momentos de distância e aproximação por meio das lembranças traumáticas de Paco e os poemas, subjetivos ao que imagina estar lá fora, de Quinha. É possível enxergar a viagem que os dois poderiam ter se o destino não os tivesse condenado a seus problemas. Paco tinha tudo para uma vida brilhante na escola, mas sofreu muito bullying ao ponto de desisitir de estudar. Já Quinha é amada por sua família e possui as oportunidades para ter o que quiser, no entanto, sua situação mental a impede de ter qualquer coisa, que não, a realidade.

Os pais de Quinha tentam mostra-la de que há algo que vale a pena lá fora para que ela acredite novamente no potencial dos humanos, e talvez se cure de sua síndrome. Paco também desacredita da humanidade, mas ainda a enxerga, mesmo que não queira. Ele escreve nas redes sociais sobre a dura realidade que vive, e é a primeira vez que Quinha lê algo sem um final feliz na internet. Intrigada pelo garoto, prossegue em suas narrativas, e quando parece que os dois só estão se afundando ainda mais em frias experiências, na verdade nasce uma esperança de algo maior e melhor.

As várias poesias no livro, tornam ele pertencente a um gênero mais profundo da literatura brasileira. Certamente este não é um livro leve que se pode ver como um passatempo. Ele exige ser uma reflexão sobre a anormalidade do estado atual de tantas crianças e como isso afeta o futuro delas. Também, as diversas metáforas fazem o leitor ter alguma lentidão na narrativa até compreender perfeitamente o que aquilo significa em outros níveis menos literais.

De forma geral, “O Terraço e a Caverna” de Maurício Limeira é um expoente importante de ser analisado, pois representa a literatura contemporânea do Brasil e por isso, já merece destaque. A narrativa extensa e nada rasa, dá espaço para um raciocínio que se preocupa com os atos cotidianos e o envolvimento com o próximo que cada um toma no dia a dia. É pesado, mas inspirador e te arrasta para as profundezas da caverna de Paco tanto quanto para as alturas do terraço de Quinha em uma viagem sem igual e raramente vista na literatura nacional.

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