Um homem comum que leva uma vida pacata se transforma em uma verdadeira máquina de matar em busca de vingança após sua família ser brutalmente atacada. Esta premissa já é bastante conhecida pelo grande público, tendo sido o molde da maioria dos filmes de ação dos anos 70, 80 e 90, e é responsável por produções que acabaram por se tornar clássicos do cinema, como é o caso de Desejo de Matar, adaptação do livro homônimo de Brian Garfield – lançado em 1972 -, que chegou às grandes telas pela primeira vez no ano de 1974, estrelada por Charles Bronson, o qual, por conta deste longa – que teve quatro sequências -, tornou-se um ícone do gênero.

Agora, mais de 40 anos depois, a história volta aos cinemas pelas mãos do diretor Eli Roth (“O Albergue”). Na trama, Bruce Willis interpreta Paul Kersey, um médico DE Chicago – diferenciando-se do original, protagonizado por um arquiteto de Nova York – que vê sua vida desmoronar quando sua esposa é assassinada e sua filha entra em coma após um estupro. A partir disso, Paul passa a flertar com a ideia de se tornar um vigilante da cidade, ou seja, sair pelas ruas à procura de bandidos a fim de matá-los enquanto caça os responsáveis por destruir sua família. À primeira vista, o roteiro de Joe Carnahan (“Esquadrão Classe A”), apesar de nada original, pode atrair o espectador que busca apenas um enredo familiar e não conhece o original.

No entanto, assim como acontece em muitos dos trabalhos de Eli Roth, boas chances de desenvolver temas cabíveis ao gênero são desperdiçadas, o que faz deste remake de “Desejo de Matar” apenas mais um filme da franquia – tão estrambólico e exagerado quanto o terceiro da série original. Pois, enquanto a versão de 1974 se mostra uma história sobre redenção – Paul vira um vigilante para combater a criminalidade, mas acaba se tornando tão violento quanto os bandidos que caça, além de não encontrar os agressores de suas esposa e filha; e revanche verdadeira (e absolutamente desinteressante) só veio na continuação, “Desejo de Matar 2” (1982) -, a refilmagem falha ao tentar criar sua própria identidade — o que, neste caso, resume-se à mistura entre gore e comédia pastelão, principal característica do trabalho do diretor.

Além disso, antes mesmo de sua estreia, o longa foi fortemente criticado pelo público, que o de ser uma produção racista e — envolvendo discussões partidárias oriundas do momento político dos Estados Unidos — favorável aos ideais da extrema direita. Muito disso se deve ao caso Martin-Zimmerman, o qual teve repercussão mundial em 2012. À época, o jovem negro Trayvon Martin foi morto pelo segurança George Zimmerman mesmo estando desarmado — o atirador foi inocentado das acusações. Portanto, os críticos do filme alegam que a premissa é datada e inconveniente — segundo eles, uma produção que mostra “um homem branco, velho e bravo” que se torna um justiceiro armado e passa a caçar civis, mesmo que criminosos, é uma “mensagem perigosa”.

De qualquer forma — questões políticas a parte —, a versão de 2018 de Desejo de Matar, além de não apresentar nada de novo, falha ao tentar ter uma personalidade própria, acabando por ser uma produção absolutamente derivada, não apenas do material-fonte, mas de muitas outras produções do gênero — lembrando que muitas delas foram protagonizadas pelo próprio Willis —, que também usaram o clássico estrelado por Charles Bronson. Assim, nem o carisma habitual de Bruce Willis conseguiu salvar esta primeira incursão de Eli Roth pela zona dos remakes — cujos princípios ele já havia adotado parcialmente em Canibais (2015). Talvez não estejamos mais na Era dos filmes de vigilantes. Fica o questionamento.

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