Por Tarsso Freire Sá

Uma das muitas formas de falar sobre um assunto é tratar dele de maneira indireta, este é o caso do documentário de Karim Sayad, Sobre Ovelhas e Homens que retrata a jornada de dois homens de diferentes gerações, Habib e Samir, que cuidam de ovelhas. Ambos vivem em comunidades carentes na Argélia.

O jovem Habib almeja treinar sua ovelha para que se torne uma premiada campeã de brigas. Se isso não acontecer, ela será sacrificada no final do Ramadã. Já Samir não cria ovelhas para brigas, mas sim para vende-las, o máximo possível antes que até o final da data sagrada para o Islamismo.

O Ramadã é o nono mês do calendário islâmico, no qual os muçulmanos praticam o seu jejum ritual, o quarto dos cinco pilares do Islão. A relação dos homens com seus animais é sempre mostrada, e durante isso os seus pensamentos, histórias e outras perspectivas de vida que tinham são reveladas. São relatos aparentemente simples, mas repletos de significados mais profundos e complexos sobre a vida dessas pessoas.

O garoto sonhava inicialmente em se tornar veterinário, mas por não ter tido acesso a educação se tornou condutor de ônibus. Agora ele deposita suas esperanças e sonhos em sua ovelha, que passou mais de 6 meses treinando. A jornada do menino vai se desenrolando e demonstrando a falta de perspectiva de vida que determinadas comunidades adotam para tentar se salvar. Tudo isso durante um momento de crise econômica da Argélia, citando os acontecimentos da Primavera Árabe.

O homem de meia-idade, Samir, perdeu os pais ainda jovem, e com 19 anos uniu-se ao combate contra o terrorismo na Guerra Civil que ocorreu no pais em 1991. Ele conta que nesse período era matar ou ser morto, se arrepende e reza a Deus para que o perdoe. O homem vive em condições precárias tendo a venda das ovelhas como única fonte de renda aparente. Apesar das dificuldades eles ainda possui esperança de que seu país irá dar a volta por cima. E de que ele poderá dar um vida digna e garantia de um futuro melhor para seu filho de 10 anos.

Durante a Primavera Árabe, ocorreram inúmeros protestos na Argélia causados pelo desemprego, a falta de habitação, a inflação dos alimentos, a corrupção, a liberdade de expressão e de más condições de vida. Em 2017, por conta da redução do preço do petróleo, uma das principais fonte de renda do país, eles acabaram se afundando em uma crise econômica sem data de determino. Ambos os eventos são citados no decorrer do filme para situar o espectador do cenário atual pelo qual o país passa.

O título da obra acaba sendo muito fiel ao que é mostrado. Os animais são a força motriz dos dois homens. Para um representa depósito de esperança, e para outro uma fonte de renda que garanta uma vida melhor.

*filme visto durante o  7º Panorama do cinema suíço contemporâneo

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