Antes das redes sociais sonharem em existir, em uma época em que o povo negro apenas levava vantagem quando conseguia dar nó em pingo d’água, eis que viveu Inácio da Catingueira. Uns dizem que existiu, outros que é só lenda, mas sabemos que era um escravo que travou uma peleja com Romano Caluete, pequeno proprietário rural da Paraíba, ali por volta de 1870. Poeta, Catingueira debateu ideias por oito dias a fio e nisso ganhou sua liberdade no papo, mostrando toda a sua habilidade de argumentação.

Com Emicida não foi muito diferente. Quem conhece sua história, sabe que ele veio de condições adversas e por meio da sua maestria com as palavras venceu discussões, Rinha de MCs, Batalha da Santa Cruz e a famosa Liga dos MC`s. A palavra, em ambos os casos, foi a responsável pela libertação. Mas uma pergunta que fica é: esse país está pronto para ver pessoas pretas realmente livres? Muitas tentativas de distorcer algumas das maiores conquistas da cultura hip-hop brasileira alcançadas pelo Zica da Rima e seu time, partem de mentes viciadas em aceitar pessoas de pele escura somente em lugares subalternos, a intenção desta distorção passa claramente o recado “volte para o seu lugar”.

“O frustrante quando você luta contra essas estruturas é que por mais que você alcance sua liberdade individual, no coletivo seus irmãos tão tudo acorrentado. E a maior coisa que você pode ter, que é a sua liberdade, acaba se tornando uma coisa menor porque quando você olha no entorno as correntes estão em todo mundo menos em você. Aí cê se sente mal por isso também, tá ligado?”, reflete Emicida.

Em “Inácio da Catingueira”, single lançado hoje, 18 de setembro, sua verborragia lírica vem com foco e dispara contra quem quer mais barulho sem sentido do que ideias trocadas em prol da evolução. Com instrumental de seu parceiro de longa data, DJ Duh, a música ganhou um lyric vídeo tão impactante quanto a rima, dirigido por André Maciel, artista plástico, ilustrador e fundador do estúdio Black Madre Atelier.

“A estética escolhida para este clipe está ligada diretamente ao personagem Inácio da Catingueira, que foi um escravo e por cantar Cordel usamos a xilogravura como estética geral, ambos fazer parte do mesmo universo, sendo a xilogravura usada na parte da literatura de Cordel. O clipe tem um formato de lyric vídeo”, finaliza André Maciel.

 

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