Já é de conhecimento geral que o dinamarquês Lars Von Trier é um dos cineastas mais polêmicos e controversos da atualidade. Tendo as perversões humanas como material fonte de sua obra, uma coisa é certa: seu estilo é o ato de provocar ou chocar as pessoas – nem sempre da forma como se espera. Por exemplo, se o público que foi aos cinemas assistir a Ninfomaníaca (Vol. 1 e 2) esperando pelas tão comentadas cenas de sexo explícito foi surpreendido pelo incômodo causado por elas, o espectador que se sentiu atraído pela propaganda de mortes violentas em A Casa que Jack Construiu também terá uma surpresa com o fato de os assassinatos do longa não serem o aspecto mais impactante da produção, que conta a história do engenheiro, cujo nome dá título à história, um homem que desde muito cedo experimentou a sensação de matar e se viciou nela, tornando-se um serial killer.

E o paralelo com o trabalho anterior do diretor não param por aí. Dividido em cinco partes, o filme mostra Jack (Matt Dillon) narrando a um interlocutor cinco pontos-chave de sua trajetória de homicídios, enquanto ambos discutem questões sobre o sacro e o profano, ódio e arte, aspecto que demonstra toda a arrogância do assassino, que tem como força propulsora de seus atos uma profunda misoginia – apesar de não matar somente mulheres, porém elas são seus principais alvos -, a qual pode ser resumida em um questionamento que a personagem-título faz acerca da dificuldade de ser homem – nascer culpado, enquanto as mulheres são tratadas como vítimas; fazendo isso, ela as culpa por suas próprias ações, tendo como justificativa argumentos fundamentalmente machistas: reclamar demais, não ser inteligente, ser muito crédula, são alguns exemplos.

Ou seja, Jack acredita que está punindo as pessoas por suas imperfeições, por sua inferioridade, como uma espécie de Nêmesis incapaz de qualquer empatia. Além disso, por outro lado, há uma crítica social subliminar ao individualismo narcisístico da atualidade: o homicida não faz muito esforço para encobrir seus rastros, mas o longa deixa claro a facilidade com que ele mata uma pessoa e segue impune simplesmente porque “ninguém quer ajudar”, todos estão ocupados demais com os próprios problemas – o que significa que os habitantes do universo do filme têm quase o mesmo nível de falta de empatia do assassino. Com isso, Jack continua matando, em uma espécie de ciclo de começo e recomeço, representado pela casa do título, a qual o homem nunca consegue concluir devido a ânsia de destruir e reconstruir, como um artista que refaz incontáveis vezes a mesma obra, em busca da perfeição.

E esta metáfora se estende por boa parte do enredo, que compara os assassinatos de Jack e os corpos mantidos em um freezer, a salvo da decomposição, com obras de arte. A estima que o serial killer tem por seus feitos e seus “troféus” demonstra que ele realmente se sente como um artista e não entende o porquê de o resto do mundo não encarar seus atos como arte; ao narrar os assassinatos que cometeu, ele soa como um galerista explicando um conceito artístico, fazendo questão de destacar o quanto é intectualmente soberbo, como a expressão de uma espécie de desespero masculino antiquado – ele deseja que seus crimes sejam descobertos e ele possa, enfim, receber o devido reconhecimento pelos seus atos, e é neste aspecto que o longa provoca um impacto mais profundo no espectador, afinal, a banalização deixa a sensação de qualquer um pode ser vítima de um ato de violência como os que são ilustrados na tela.

No entanto, apesar do peso das suas cenas e, principalmente, do seu discurso, o filme ainda consegue extrair algum humor de uma trama tão grotesca. Como Jack vai a fundo em seus relatos, o público testemunha a incipiência do início de sua carreira de serial killer, aliando isso ao Transtorno Obsessivo Compulsivo que o impede de ir embora do local do crime sem deixa-lo absolutamente limpo, cria-se momentos em que o espectador se pega rindo de cenas de sadismo e sordidez. Muito disso só é possível devido a atuação de Matt Dillon, que consegue encarnar o sociopata não estereotipado, sem cair nas armadilhas da caricatura; em vez disso, ele exibe uma assustadora apatia diante do sofrimento alheio, o que acaba por ser muito mais impactante do que qualquer surto lunático. E é justamente a interpretação do ator que ajuda a amenizar a grande falha do longa: a personalidade de seu realizador.

À esta altura, Lars Von Trier já criou e solidificou uma identidade própria, ele é um diretor e roteirista autoral, porém, com certa frequência, seu perfil e seu ego transbordam de suas obras. Ao longo do filme, as principais características de seu trabalho estão presentes: a câmera na mão oscilando entre corpo, rosto e ação, dando um ar de mockumentary, um transtorno mental como elemento-chave, o roteiro verborrágico quase didático e um tanto quanto ufano – aspectos com os quais os espectadores que conhecem o trabalho do dinamarquês já estão habituados. Contudo, há momentos em que criador e criatura – Lars e Jack – se confundem e o diretor passa a falar de si mesmo e de seus trabalhos, dando à produção um fastidioso tom auto-congratulatório – um exemplo disso é a repetição de uma “piada” envolvendo Hitler que fez com que o diretor fosse banido do Festival de Cannes. Além disso, a auto referência e a reafirmação da própria identidade passa a impressão de que toda a violência gráfica está presente porque sim, porque Von Trier quer e gosta de chocar, sem qualquer outro propósito além desse, o que gera a pergunta: seria esta uma forma de preencher e encaixar em sua filmografia a, talvez, menos inventiva de suas criações?

Assim, quando o interlocutor, Virgílio (Bruno Ganz) – aquele mesmo de “A Divina Comédia” – tem sua face revelada, assumindo o papel de guia – tal qual na obra imortal de Dante -, ele e Jack partem em uma incursão por uma analogia às camadas do Inferno, como uma tentativa de fazer o assassino enxergar a si mesmo, o que demonstra que o diretor, ao falar de si mesmo, tenta explicar sua relação com a arte, apresentando perguntas e oferecendo as respostas, sem margem para interpretações diferentes da dele, como se o longa fosse uma mensagem de “apreciem a minha verdade”. Não é um filme ruim – longe disso -, é uma produção interessante – ainda mais se for levada em consideração a frase “Alguns afirmam que as atrocidades que cometemos na ficção são desejos internos que não podemos revelar em nossa civilização controlada. Então, os expressamos através de nossa arte”, dita por Jack, que faz o espectador questionar se A Casa Que Jack Construiu nada mais é do que a mente de Lars Von Trier.

 

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