O cinema argentino sempre foi uma das fontes de filmes prestigiados no mundo, estando constantemente no radar das premiações desde que O Segredo dos Seus Olho” ganhou o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. E a última novidade vinda de terras hermanas é o suspense “Acusada”, dirigido por Gonzalo Tobal. A trama gira em torno de Dolores Dreier (Lali Espósito), uma jovem estudante de Moda de 21 anos que foi acusada de assassinar sua melhor amiga, Camila Vidal, após esta vazar na internet um sex tape de Dolo. O filme se passa dois anos e meio após o crime, quando o julgamento da ré tem início em meio a um circo midiático formado em torno do caso que parou o país e divide opiniões.

Assim, o longa já começa pondo o espectador na atual situação vivida por Dolores e sua família. A garota passa a amior parte de seu tempo dentro de casa, com medo de que uma aparição pública possa gerar mais um escândalo capaz de prejudicar a defesa elabora por seu advogado, Ignacio Larocca (Daniel Fanego), temendo também uma possível agressão, uma vez que o público tem se mostrado bastante passional. Deste modo, sua principal companhia é o irmão mais novo, Martin (Emilio Vodanovich), que se ressente um pouco com a irmã porque seus pais pensam em não realizar a Primeira Comunhão do menino por causa dos ânimos aflorados.

Quem também está sempre presente neste período conturbado é Flo (Martina Campos), amiga que defende Dolores em todas as situações e a apresenta a Lucas (Lautaro Rodriguez), com quem inicia um relacionamento, apesar do posicionamento contrário dos pais, Luis (Leonardo Sbaraglia) e Betina (Inés Estévez), os quais reagem de formas distintas a todo este furacão que tomu conta da vida família. Ele é um homem racional que, volta e meia, tem arroubos de agressividade diante da pressão. E ela tenta manter todos unidos e esconder as atitudes impensadas de cada um.

Com este quadro apresentado, é necessário destacar que o ponto alto do filme é a criação do suspense, afinal, o público também não sabe se Dolores é culpada ou não, apesar da alegação de inocência dela. Desta forma, conforme a trama avança, a tensão – muito bem trabalhada – aumenta gradativamente, em especial, quando o julgamento, de fato começa, no segundo ato. E muito disso só foi possível graças ao desempenho de Lali Espósito no papel central da história. Mostrando uma atuação segura em todas as cenas, a atriz monopoliza a atenção da audiência com uma interpretação dúbia, que faz o espectador acreditar e desacreditar da inocência de Dolores a cada virada do enredo.

Além de Lali, todo o elenco está repleto de nomes conhecidos e talentosos, como Leonardo Sbaraglia que, na pele de um pai de família que se tornou um homem duro e está prestes a ter um colapso nervoso, faz o público odiar e compadecer de Luis alternadamente; Inés Estévez também apresenta uma atuação consistente como uma mãe amoroso que se vê obrigada a vestir uma armadura pesada pelo bem da própria família; e até Emilio Vodanovich, o membro mais jovem do elenco tem um ótimo desempenho. Há ainda uma excelente participação especial de Gael Barcia Bernal interpretando Mario Elmo, o inescrupuloso e imparcial apresentador de um programa de TV sensacionalista, no qual Dolores vai se defender após ser, novamente, acusada por Marisa (Ana Garibaldi, mais uma interpretação no elenco), mãe de Camila, neste mesmo talk show.

E, se nos quesitos roteiro e interpretação o filme mostra um nível elevado, os outros aspectos técnicos também não ficam pra trás. A direção de Tobal é precisa, sua câmera se move com suavidade e valoriza os silêncios. Soma-se isso à uma cinematografia fria e pálida – trabalhando tons de azul e cinza – e uma trilha sonora perturbadoramente delicada e comedida, o que, levando em consideração o contexto, aumenta ainda mais o suspense. E a cena em que o veredicto é aunciado é muito bem elaborada, valorizando as sensações de Dolores naquele momento – e estendendo a ansiedade do público por mais alguns segundos.

Assim, Acusada é um excelente thriller de tribunal, com atuações acima da média, uma produção apurada e uma roteiro sagaz, fatores que justificam o burburinho que o filme tem causado em diversos países e as indicações que recebeu – como o Leão de Ouro do Festival de Veneza, o Volpi Cup de Melhor Atriz, o Copa Volpi de Melhor Ator, o Leão de Prata de Melhor Direção, Melhor Roteiro, entre outros -, e que, de certa forma, lembram um pouco o aclamado “Garota Exemplar”, mas com uma identidade própria, pois, diferente do suspense de 2014 – e por meio de uma excelente metáfora com a subtrama sobre a possível ameaça de um puma escondido em naquele território urbano -, “Acusada’ pode, talvez, quebrar as certezas do público com a dubiedade de seu desfecho – cabe ao espectador decidir se aceitará a resposta dada, ou se havia algo por trás daquela última cena.

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