Desde que Steve McQueen ganhou o Oscar de Melhor Filme por 12 Anos de Escravidão, qualquer novo trabalho do diretor provoca ansiedade e burburinho por parte do público e da crítica, ainda mais quando o elenco é encabeçado por Viola Davis, uma das atrizes mais aclamadas a atualidade. Logo, com As Viúvas não foi diferente.

 O enredo – adaptado do livro homônimo de Lynda La Plante, lançado em 1983 – acompanha as ações de Veronica Rawlins (Viola Davis), Alice Gunner (Elizabeth Debicki) e Linda Perelli (Michelle Rodriguez), cujos maridos – Harry (Liam Neeson), Florek (Jon Bernthal) e Carlos (Manuel Garcia-Rulfo), respectivamente – eram membros de um grupo de ladrões profissionais que morreram após um grande roubo dar errado. Paralelamente a isso, há ainda a trama que envolve Jamal Manning (Brian Tyree Henry) e Jack Mulligan (Colin Farrell), dois homens absolutamente distintos que estão concorrendo ao mesmo cargo político na cidade de Chicago, onde o filme se passa.

Após a tragédia se abater sobre a vida das viúvas, estes dois arcos de cruzam quando Jamal, alvo do rouba fatídico, cobra de Verônica os 2 milhões de dólares perdidos durante a ação, dando-lhe o prazo de um mês para conseguir o valor. Assim, a mulher, ainda em luto, recorre às outras esposas para realizarem o próximo roubo da gangue, que já estava planejado. A partir da junção de todos estes elementos, o público já começa a ter uma ideia do tipo de história que será contada e o tipo de personagens a povoam. Desta forma, o primeiro aspecto que fica claro é a desconstrução do enredo clássico de mocinhos contra vilões; todos tem falhas de caráter, em maior ou menor grau, mas o fato é que nenhum deles pode ser chamado de “bonzinho”, em especial por a trama ter um viés político muito forte – no fim, este é um filme político, altamente crítico, e não apenas uma produção sobre viúvas realizando um roubo, o que, no atual contexto mundial, foi um grande acerto do roteiro, escrito por McQueen e Gillian Flyn, autora de “Garota Exemplar”, clássico instantâneo do cinema de suspense que também já foi adaptado para o cinema, em 2014.

E esta parceria entre os dois funcionou muito bem. Por um lado, há a pegada sócio-política que McQueen exibe com perfeição, a tensão racial ainda presente nos Estados Unidos e os dois mundo absolutamente diferentes que coexistem na mesma cidade – uma sequência em particular evidencia isso, quando Jack sai de um evento de sua campanha e segue de carro para sua casa; enquanto ele e sua assessora, Siobhan (Molly Kunz), discutem no interior do veículo (em voice over) acerca da insatisfação dele por ser “obrigado” a seguir a carreira política como seu pai e seu avô, a câmera dirige seu olhar para a esquerda da tela, focando na região pobre do distrito (povoada por negros e latinos) e, conforme o automóvel se aproxima do bairro de Jack (ocupado por casarões de famílias quatrocentonas), a câmera se volta para o lado oposto, expondo o abismo existente entre as duas realidades que são, geograficamente, tão próximas.

Já por outro lado, Flyn injeta na trama suas doses características de tensão e reviravoltas que a tornaram uma das escritoras de suspense mais cultuadas da atualidade. E se nas obras originais da autora nada é realmente o que parece ser, aqui, esta característica também está presente desde as apresentações das personagens. Por exemplo, o primeiro encontro entre Jack e Jamal no filme: a primeira impressão que se tem do político vivido por Farrell é do tradicional homem branco, racista, arrogante e com fome de poder; na contramão, Manning é visto como um membro da comunidade negra que busca ajudar seu povo; porém, assim que a conversa acaba, a coisa muda de figura e fica claro, já de início, que Jack é um “fraco” que age sob a pressão do pai e Jamal é um facínora – que é o mais próximo que o filme tem de um “vilão”.

E se Jamal é a mente maliciosa que impulsiona o plot principal, Jatemme (Daniel Kaluuya), seu irmão, é quem faz o trabalho braçal, o qual envolve perseguição, ameaça, tortura e assassinato – em cenas magistralmente orquestradas por McQueen e protagonizadas por Kaluuya. Trata-se o típico antagonista que o público ama odiar; a personagem exibe traços de uma sociopatia carismática que se torna hipnótica na tela, pois realiza suas ações com uma calma cheia de tensão que precede um ato cruel e frio, resultando na melhor atuação da carreira do ator até agora, o que põe em consideração possíveis indicações a Melhor Ator Coadjuvante nas premiações de 2019.

Ainda no quesito interpretação, é claro que o destaque é de Viola Davis, que consegue dominar a cena como poucas. Sua personagem é, de longe, a mais complexa do longa. Verônica é uma mulher que fechou os olhos para a fonte de renda do marido em prol do casamento, que foi abalado por uma tragédia do passado que a colocou em um luto insuperável, o qual ela tranca dentro de si, tornando-se uma pessoa dura e quando ela tem a “licença” para dar vazão a este sentimento novamente, a viúva se vê obrigada a vestir uma armadura outra vez e assumir a liderança do novo grupo que se formou por força das circunstâncias.

Contudo, embora Davis tenho o protagonismo na trama, há outras atuações que também se destacam. Michelle Rodriguez, conhecida por viver personagens badass em filmes de ação – como na franquia Velozes & Furiosos -, é uma grata surpresa do elenco, conseguindo exprimir luto e vulnerabilidade, entregando uma atuação consistente e crível até nas cenas mais dramáticas, quando a pressão de fazer o que for preciso e se arriscar para proteger seus dois filhos logo após a morte do marido se torna muito intensa sobre seus ombros. Completando o trio protagonista, Elizabeth Debicki também consegue construir uma interpretação sólida como uma jovem que era sustentada pelo marido abusivo e se vê perdida após a morte dele, quando seu único ponto de referência passa a ser a mãe, Agnieska (Jacki Weaver), que deseja o melhor para a filha, mas sempre a orienta a seguir o “caminho mais fácil”; ainda assim, Alice demonstra uma sagacidade em alguns momentos que se alternam com a inocência carente que torna a personagem muito cativante e, por vezes, engraçada.

O elenco ainda conta com Robert Duvall como Tom Mulligan, pai de Jack, um homem autoritário, racista e machista, representante da velha política, que não se conforma por não ter mais o mesmo vigor de antes para obrigar o filho a agir como ele e se ressente por isso; e Cynthia Erivo, que interpreta Belle, uma mulher que se vira como pode para sustentar a família e, por suas habilidades, acaba por se unir à gangue das viúvas, às vezes, servindo como um leve alívio cômico por conta de sua língua afiada. Ambos, mesmo com menor tempo de tela conseguem cumprir seus respectivos papéis com louvor.

No entanto, por mais que o longa possua uma história instigante, diálogos rápidos, certeiros e ácidos que são um verdadeiro deleite para o espectador, e um elenco afiado, o roteiro de McQueen e Flyn derrapa em alguns pontos. O primeiro é a escalação de atores muito bons para personagens que com pequenos ajustes nem precisariam estar na trama, como Jacki Weaver (O Lado Bom da Vida) e Carie Coon (Garota Exemplar), que dá vida à Amanda, a viúva que não se junta ao grupo – ambas são excelentes atrizes que ficam relegadas a duas ou três cenas; Amanda ainda tem uma conexão direta com o plot principal e suas reviravoltas, mas a personagem é subaproveitada, assim, nos dois casos, fica a sensação de talento desperdiçado.

Outra falha do roteiro é a presença de algumas conveniências – como uma personagem que é introduzida na trama apenas para ter a solução de um problema específico, tendo esta como sua única função na história, o que soa um pouco forçado. O terceiro ponto fraco é justamente um dos mistérios do enredo, o qual envolve o lugar onde o roubo será realizado; as viúvas têm somente a planta do local, mas não sabem onde ele está localizado, porém o espectador mais atento mata a charada antes da metade do filme. É claro que isso não prejudica o investimento do público no longa, no entanto, atrapalha um pouco o desenvolvimento da trama, uma vez que o primeiro ato possui uma montagem muito precisa e enérgica que capta a atenção da audiência já na primeira cena ao contrapôr o dia-a-dia dos casais protagonistas com as ações da gangue, mas que perde o ritmo no segundo ato, recuperando o fôlego somente no terço final, quando a ação – o roubo e o grande plot twist -, de fato, acontece.

Assim, As Viúvas, mesmo tento algumas falhas, termina como um thriller dramático muito acima da média, como um roteiro instigante, ótimas atuações, uma direção primorosa do oscarizado Steve McQueen, trama atual cuja crítica social – os interesses escusos do meio político, sua associação com a religião e o antagonismo racial – se relaciona com o atual cenário mundial e consegue dosar com precisão as suas matizes de suspense, drama e ação, fazendo com que seja capaz de agradar tanto ao público geral que consome, em sua maioria, blockbusters de enredo mais escapista quanto ao espectador que prefere acompanhar as produções que tem mais chances no circuito de premiações – e como os longas que visam as categorias principais destas cerimônias costumam chegar às salas comerciais justamente no último trimestre do ano, só resta esperar para saber se a nova empreitada de Steve McQueen será tão bem sucedida quanto a anterior.

Mostra: Noite de Abertura Festival do Rio 2018

 

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