Apesar de Hollywood ser a indústria cinematográfica que é hoje, é inegável que a França sempre oferece ao público algo de instigante e inusitado, afinal ela é o berço do cinema, e, não a toa, sedia um dos maiores – senão o maior – festival de filmes do mundo, cuja edição de 2018 exibiu o longa Faca No Coração, de Yann Gonzales, que apresenta uma trama, no mínimo, curiosa. A trama, a qual se passa na Paris de 1979, conta a história de Anne (Vanessa Paradis), uma produtora e diretora de filmes pornográficos gays que ainda não superou o término de seu relacionamento de 10 anos com a montadora Loïs (Kate Moran). Sua vida, que já andava complicada pelas crises amorosa e financeira, vira de cabeça para baixo quando os principais atores de seus filmes começam a ser assassinados um a um por um algoz mascarado vestindo uma fantasia um tanto quanto fetichista. Diante do desinteresse da polícia em investigar o caso, Anne passa a realizar sua própria investigação enquanto põe em prática uma ideia que pode ser a salvação de sua produtora: filmar “Homocidal”, um longa pornô baseado nos homicídios que têm vitimado sua equipe.

A premissa do filme já é interessante por si só e o primeiro assassinato – o qual acontece logo nos primeiros minutos -, que consegue ser impactante, excitante e um tanto quanto aflitiva, coloca o espectador totalmente investido no enredo e estabelece o tom de boa parte da produção, a qual adota uma mistura de thriller slasher com a comicidade de um trash de humor negro e esse é o grande trunfo do longa, povoado por tipos peculiares, como o afetado ator/diretor/assistente Archie, interpretado por Nicolas Maury, que consegue dar credibilidade a uma personagem caricata; há ainda o assistente Boca de Ouro (Pierre Pirol), responsável por alguns dos diálogos mais engraçados do filme e cujo nome dispensa explicações, e um grupo de transsexuais e drag queens. Este núcleo principal forma a identidade queer da produção, em contraponto com a temática de suspense – embora esta também possua um porção cômica; por exemplo, a arma do assassino mascarado é simplesmente um vibrador que, quando ativado, revela uma afiada lâmina.

Além disso, ainda há a parte do roteiro que faz alusão ao gênero slasher, o qual sempre possuiu um subtexto voyeurista – o que é levado ao pé da letra já na primeira cena e leva o público para dentro do filme -, assim como a essência do pornô, o que faz com que todas as personagens – principalmente Anne – tenham um quê de voyeur. Ademais, este subgênero do terror também tem por base a conotação sexual, uma vez que se utiliza de armas perfurantes para penetrar e matar suas vítimas – e sempre falhando com a personagem mais “virginal” da trama, enquanto os mais devassos jamais conseguem escapar. Isso tudo ajudar a marcar um tom de homenagem e paródia – nada mais adequado quando se trata do mundo underground mostrado em tela. A gravações das cenas pornográficas são hilariantes, seja pelo contexto, pelas atuações exageradas ou pelos diálogos divertidamente toscos, o que torna as sequências cômicas e fidedigna às produções amateur – basta visitar a categoria Vintage em qualquer site para verificar a veracidade desta informação.

E, nos aspectos técnicos, Faca No Coração é impecável. A cinematografia colorida, fortemente baseada no contraste entre azul e vermelho, é quase uma personagem à parte na história. Outro destaque é a montagem, a qual, em alguns momentos, realiza até inserções experimentais que só serão compreendidas no desfecho da trama – além dos trachos dos filmes de Anne, os quais reproduzem com perfeição a estética das produções setentistas do gênero, o que só eleva a excelente reconstituição de época. Somada a isso, está a trilha sonora, que possui uma pegada “disco futurista”, como uma espécie de releitura da metade do século XXI para as músicas do Santa Esmeralda. E o design de som também tem uma função importante para a história, pois, apesar de ser sobre uma produtora de filmes pornô, o longa não é pornográfico – aliás, no que diz respeito a nudez e sexo, temas com os quais o cinema francês não demonstra qualquer pudor, a produção de Gonzales mostra uma surpreendente pudicícia, utilizando os sons se felação, penetração e orgasmo para estimular a imaginação do público acerca do que está fora da tela.

Porém, apesar de tantos acertos, o longa comete um grande erro: abandonar seu tom queer thriller trash paródico para enveredar pelo caminho de uma investigação desinteressante, fazendo com que a trama se perca no segundo ato, quando são introduzidos novos personagens que destoam de todo o resto – apesar da boa atuação de Romane Bohringer como Cathy Vannier -, momentos que seriam engraçados no contexto anterior parecem apenas despropositados – como a mutação de Pierre (Thomas Ducasse) -, e a história passa a rumar em direção a um desfecho que causa um mau pressentimento no espectador. Além disso, essa mudança de enfoque prejudica o desempenho de Vanessa Paradis, um ícone pop da França – responsável pelo clássico dos anos 80 “Joe Le Taxi”, que, no Brasil, virou o “Vou De Táxi”, da Angélica – que possui uma longa carreira no cinema e cuja atuação até então exibia uma frivolidade e uma inconsequência quase pueris que eram hipnóticas – e se encaixavam com o tom da trama. No entanto, o roteiro – de Gonzales e Cristiano Mangione -, ao promover essa virada no enredo, dá origem a uma constante sensação de dissonância durante este terço da história. E esta mudança acaba impactando todo o resto da produção.

Quando o filme retorna – mais ou menos – para o estilo inicial, no terceiro ato, as descobertas e subtramas apresentadas no bloco anterior afetam o clímax da história – o qual poderia ser genial simplesmente por acontecer em um cinema que exibe filmes pornô, durante a estreia de “Homocidal” -, pois, para aceitar o desfecho/justificativa do mistério, o público vai ter que passar por cima de tantas conveniências e coincidências que até a ótima ideia de usar um clichê do pornô gay como parte da explicação soará forçada. Assim, “Faca No Coração” é um filme que homenageia diversos gêneros – como o slasher, o amateur underground e até os blue films – possui uma excelente premissa, uma produção tecnicamente muito cuidadosa e apurada, mas cujo roteiro falha ao amarrar suas pontas, oferecendo uma conclusão que faz o espectador pensar que todas as teorias que formulou na primeira metade do longa eram melhores e mais plausíveis do que a resposta apresentada, o que é uma pena, porque o filme é bom, porém poderia ter sido muito melhor.

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