Um avião cruza o céu de Nova York e atinge a Torre Sul do World Trade Center. A cena é acompanhada ao vivo por milhões de espectadores. Quando as emissoras de TV começam a transmitir o que viria a ser conhecido como os ataques de 11 de setembro de 2001, a Torre Norte, a primeira a ser atingida, já está em chamas. As imagens são indissociáveis do começo do século XXI e permanecem como signo de assombro. Para o público, especialmente o ocidental, o episódio definiu o que é terrorismo. A construção desse imaginário, no entanto, antecede a tragédia, sendo fortemente influenciada pelos meios de comunicação. A advogada e cientista política Renata Medeiros de Araújo analisa esse desdobramento no livro Deu no New York Times, da Freitas Bastos Editora

Como o título sugere, Renata delimita sua investigação ao famoso periódico nova-iorquino, escolhido justamente por sua relevância frente à opinião pública. A pesquisa se concentra num período de dez anos, de 1991 a 2001, indo da Guerra do Golfo até a queda das Torres Gêmeas.

“Eu me interessava em entender como o Ocidente vê o Oriente. Islâmicos e muçulmanos formam uma população enorme, quase tão numerosa quanto a católica, mas a hegemonia americana, a força da cultura, passa por cima das ditas minorias, impondo uma forma de pensar. O atentado confirma isso e, ao mesmo tempo, muda a face do terror. Mas é importante compreender o que aconteceu antes”, explica ela.

Como o livro destaca, após o 11 de setembro, terrorismo e fundamentalismo islâmico se tornaram quase sinônimos, uma simbiose reforçada pela imprensa e usada como justificativa para legitimar a política externa americana.

A autora é formada em Direito pela Universidade Cândido Mendes e possui mestrado em Ciência Política pelo Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro (IUPERJ-2016). Deu no New York Times é resultado de um estudo de quase três anos, em que Renata se debruçou sobre acervos e bases de dados das principais instituições ligadas a órgãos de segurança e ao combate ao terrorismo do mundo, como o FBI (Federal Bureau of Investigation), CIA (Central Inteligence Agency), GlobalSecurity.org e Global Terrorism Database.

O rigor e a densidade da pesquisa tornam o intrincado panorama internacional ainda mais revelador. Segundo ela aponta, há uma considerável discrepância entre os relatórios do FBI e as colunas do jornal a respeito do que é terrorismo.

Na avaliação de Renata, é evidente que a informação é necessária, mas a superexposição do tema acaba agregando novos significados ao assunto. Lidar com isso é parte de um exercício delicado. “Torço para que o livro sirva como um alerta sobre o papel das mídias. Afinal, realidades são produzidas a partir de opiniões. Por isso é tão importante termos acesso ao contraditório, ao outro lado”, reforça.

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