Por Janda Montenegro

Dois rapazes de classe média em uma cidade grande no México, amigos desde a época da faculdade de Veterinária. Um deles tem personalidade mais forte (Juan Nuñez, interpretado por Gael Garcia Bernal), o outro, faz tudo o que este pede (Benjamin Wilson). Um dia, Juan está ajudando a fotografar peças antigas no Museu de Antropologia do México quando começa a divagar sobre o valor que esses objetos têm. Nacionalista de coração, é o tipo de cara que reclama da inserção de palavras em inglês na língua hispânica e tem ranço contra os europeus, que saquearam os países da América levando nosso ouro e nossa prata. Às vésperas do Natal, é anunciado que o museu ficará fechado na virada no ano para modernização do local, e é assim que surge a ideia de roubar as peças.

Baseado em um fato real que aconteceu no México em 1985, o filme flerta com o fantabulesco absurdo, ora se tornando irreal, ora se aproximando tanto da realidade, que parece o Brasil. A ideia de Juan e Wilson era levar mais de 140 peças do Museu e revendê-las no mercado negro, para colecionadores. O que acontece, na verdade – como vocês podem imaginar –, é que os dois não conseguem vender o saque, porque as peças não só são de valor inestimável, como também são parte do acervo nacional e estão visadas por todas as autoridades do mundo todo. Tendo os dois já cometido o crime e sem conseguir dinheiro com isso, os amigos ficam num impasse sobre que rumo tomar.

Como a história se passa nos anos 80, notamos as limitações que a época tinha, especialmente com relação à comunicação, basicamente dependente de telefones fixos e orelhões. Porém, gostaria de destacar três pontos interessantíssimos do filme. O primeiro é relativo aos amigos Juan Nuñez e Benjamin Wilson. Como dá para perceber, a dupla interage como um Sherlock Holmes e Sr. Wilson às avessas, que em vez de investigar os crimes, os comete. Cabeça da dupla, Juan tem as ideias e as soluções para todas as ocasiões, relegando ao comparsa apenas a execução inquestionável de tudo que lhe é pedido e a dúvida sobre o que estão fazendo.

A segunda observação refere-se às cenas de ação, filmadas como uma grande homenagem aos filmes de comédia pastelão em preto e branco, com movimentos lentos e coreografados, bem autoral mesmo. É risível ver os atores esperando receber o golpe e pulando teatralmente para trás fingindo dor. Faz a gente ter saudade da época em que os filmes precisavam conduzir a reação dos espectadores. Por fim, ainda sobre estas cenas – e também sobre repetições de falas, ideias e piadas ao longo das duas horas e vinte de filme –, percebe-se uma influência da série ‘Chaves’, que se valia da insistência das piadas para fazer o público rir ao exibi-las constantemente em situações similares. A inspiração na série de maior sucesso no México é tão clara que o próprio Juan chega a mencioná-la.

Museu é uma comédia dramática nervosa, sobre dois amigos ingênuos com boas intenções no coração, mas que não nasceram para o mundo do crime. E que faz os espectadores, ao verem o descaso e as condições com que os museus no México funcionam, sentir o coração chorar um pouco ao lembrarmos do que aconteceu com o nosso Museu Nacional.

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