Cinebiografias sempre são uma tarefa desafiadora – retratar a vida e a essência de uma pessoa ao longo de duas horas de forma crível, destacando os momentos mais importantes sem cair nas armadilhas da reverência ou da condescendência. A missão se torna ainda mais difícil quando o biografado é um dos artistas mais aclamados da História da arte – que também era um homem esquizofrênico. E se a produção opta por exibir sua trama a partir do ponto de vista deste protagonista, o resultado pode ser imprevisível. Porém, foi exatamente esta a decisão tomada pelo diretor Julian Schnabel para levar às telas a vida de Vincent Van Gogh. O enredo parte do momento em que o pintor vai ao sul da França – já adulto e com seu estilo definido mas ainda sem o seu método de transcendência por meio da natureza – até seus momentos finais, sempre valorizando a perspectiva do retratado.

Desta forma, o longa não tem uma preocupação em ser uma biografia realista, mas em trabalhar a subjetividade, mesclando história e personagem. A intenção disso é clara: Van Gogh foi um injustiçado; incompreendido em vida – ele não conseguiu vender uma obra sequer apesar do alto nível de produção que, por exemplo, o fez criar 75 pinturas ao longo dos 80 dias em que esteve internado em uma instituição psiquiátrica -, ou seja, ele estava à frente de seu tempo, fato que o levou à aclamação apenas depois de sua morte. Assim, a produção busca reparar um erro – e, talvez, até uma dívida – histórica do mundo com o artista, levando ao público a forma como este via o mundo – o que foi exatamente a razão pela qual foi execrado em seu tempo – e todos os elementos do filme são voltados para este propósito.

Com isso, a estética do longa é naturalmente imponente, trabalhando tons de azul, laranja e ocre – principais cores do trabalho de Van Gogh -, que são ressaltados pela cinematografia límpida e azulada. Este destaque é elevado pelo uso de lentes grande-angulares – ótimas para o registro de paisagens, um importante elemento da obra do holandês -, as quais acentuam o aspecto subjetivo da produção, assim como a leve instabilidade da câmera na mão, a qual traz suavidade e realismo às cenas. E algumas das características relativas à direção de Schnabel já haviam sido vistas em seu aclamado O Escafandro e a Borboleta e servem bem às duas histórias; enquanto o longa de 2007 trata de uma mente em ebulição aprisionada em um corpo incapaz de deixar o estado de inércia, o novo trabalho do diretor a repudia pela expressão de uma psique igualmente hiperativa.

Outro fator que eleva a visão dada à narrativa é a interpretação de Willem Dafoe – de 63 anos -, que, antes do lançamento do longa, foi alvo de muitas críticas por sua escalação para viver Van Gogh, de 37 – o ator respondeu com a alegação de que a expectativa de vida na França do século XIX era de 40 anos, o que torna possível que um sexagenário o interprete. De qualquer forma, a atuação de Dafoe supera qualquer comentário negativo. Na pele do artista, ele cria uma personagem cativante, munido de uma inocência quase pueril, a qual o faz se sentir deslocado, exilado no mundo e na própria vida, tornando-o recluso em si mesmo, apesar da personalidade pacata que só é abandona quando o pintor se vê alvejado por questionamentos acerca de sua arte, resultando em mais um trabalho impecável do ator, cujo desempenho ameniza a principal falha do filme – se é que tal aspecto pode ser visto desta forma.

Por causa da escolha do diretor de retratar a vida de Van Gogh através dos olhos do biografado, o pintor passa a ser não apenas o eixo da trama, mas também a única ligação que o público tem com a história. Esta decisão faz com que as outras personagens – como Paul Gauguin (Oscar Isaac), outro nome de destaque nas artes, e Theo Van Gogh (Rupert Friend), irmão de pintor que teve um papel importante em sua vida por apoiar o artista e tentar vender suas obras -, não possuam desenvolvimento ou algum tipo de arco, elas são apenas coadjuvantes com funções quase prosaicas na narrativa – o que não é necessariamente um problema se o espectador comprar a ideia e embarcar na proposta de Schnabel, ou seja, acompanhar a mente de Van Gogh e não suas existência e relações de forma objetiva.

Assim, No Portal da Eternidade é uma interessante proposta de cinebiografia – que, talvez, não agrade aqueles que esperam por uma abordagem mais tradicional -, cujos méritos, sem dúvidas, se sobressaem; ao optar por seguir uma lógica própria, valorizando os aspectos sensoriais – inclusive em momentos-chave da trajetória de seu biografado, como a mutilação da própria orelha – e levando ao público uma visão particular de Van Gogh sobre o mundo, sobre si mesmo e sobre sua arte para, enfim, realizar o desejo incompreendido pelas pessoas de seu tempo, como é dito pelo pintor, que só queria tanto compartilhar o que via, mas teve que esperar uma eternidade para que o seu olhar sobre o universo assustador que o cercava fosse apreciado, valorizado e entendido.

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