Se tem um tema que sempre despertou o interesse das pessoas, resultando em filmes aclamados como La Dolce Vita, Dreamgirls e as quatro versões de Nasce Um Estrela. Agora, o assunto volta a ser fonte de inspiração no longa Vox Lux, escrito e dirigido por Brady Corbert, que após atuar em produções tais quais Violência Gratuita e Melancolia e ser premiado no Festival de Veneza em sua estreia como diretor com A Infância de um Líder, de 2015, flerta com diversos gêneros, como o drama musical, o suspense e a comédia de humor negro para apresentar uma análise social satírica sobre banalização da violência, cultura pop, indústria musical, espetáculo e fama.

Dividida em uma estrutura similar a de uma ópera – Prelúdio, Ato I, Ato II e Finale -, o filme acompanha a história de Celeste (Raffey Cassidy), uma jovem de 14 anos que é uma das poucas sobreviventes de um atentado que vitima estudantes e funcionários de uma escola, em 1999. Após se recuperar das lesões físicas provocadas pela tragédia, a garota participa de uma vigília televisionada em homenagem aos mortos na qual canta uma música sobre perda escrita por ela. A canção se torna um hit instantâneo e a adolescente ganha fama nacional, sendo procurada por um agente de talentos (Jude Law) que está disposto a transformá-la em uma estrela do pop.

Assim, ao longo do Ato I – o qual acontece em 2000/2001 e é chamado de “Gênesi” ­-, o público segue Celeste, sempre acompanhada de sua irmã mais velha, Eleanor (Stacy Martin), dando os primeiros passos de sua jornada rumo ao estrelato, o que inclui a gravação de um EP, aulas de dança, viagens para o exterior, experiências com drogas e um breve relacionamento com um astro do rock, o que tem uma consequência futura. E todos estes fatores acabam por afetar de alguma forma a persolidade inocente, curiosa e vulnerável da jovem conforme ela se aproxima cada vez mais do centra da máquina de produzir popstars.

Quem espera que este seja um filme “estrelado por Natalie Portman” pode estranhar a longa espera para ver a atriz em cena, o que só acontece na metade do longa, quando tem início o Ato II – “Regênesi” -, o qual se passa em 2017. Deixando o tom mais sombrio e dramático de lado, a terceira parte da trama apresenta uma nova Celeste, que em nada lembra a doce adolescente cheia de potencial de outrora. Já adulta, a cantora é uma diva estafada a própria condição de “entidade”, mimada, egoísta e arrogante, que já se envolveu em muitos escândalos, vive brigando com a imprensa e parece estar constantemente à beira de um ataque de nervos.

Nesta segunda metade da história, a interpretação de Portman é o que mais chama a atenção; agora, Celeste não é uma pessoa necessariamente agradável, mas é pateticamente engraçada. A pop star pode ser vista como caricata, mas isso é proposital – a cantora e compositora australiana Sia, que é responsável pela trilha sonora além de ser produtora executiva do longa, ajudou a atriz na composição da personagem, que possui traços de várias artistas reais. Ela tem a excentricidade camaleônica de Lady Gaga – além de ter um visual meio gótico futurista, meio glam rock similar à era “Born This Way”, fora o fato de chamar seus fãs de “Little Angels”, como os “Little Monsters” da Mother Monster -, é munida de uma avalanche de sintetizadores como Kylie Minogue, tem a voz tratada pelo autotune como Katy Perry, e exibe a atitude bitchy de Madonna.

Aliás, esta é a influência mais forte, como pode ser visto na última parte do longa – “Finale” -, que consiste em um megalomaníaco show de Celeste, no qual o tom e timbre de voz da cantora lembram muito os da Rainha do Pop na virada dos anos 80 para os 90, e a referência fica ainda mais clara com a apresentação da música “Private Girl”, cuja semelhança com a letra de “Material Girl” não é mera coincidência. Mas, apesar disso, Natalie Portman consegue imprimir em Celeste uma personalidade própria, personalidade esta que é um grande problema quando um grupo terrorista realiza um ataque em uma praia em Brac, na Croácia, usando máscaras iguais as que a cantora utilizou em seu primeiro videoclipe e a mídia cobra um posicionamento da estrela.

Desta forma, por mais que a personagem possa soar caricata, Natalie Portman tem bastante material para realizar um trabalho preciso e muito bem calculado, uma vez que foi necessário que a atriz ficasse no limiar do exagero para que sua Celeste funcionasse, e ela consegue achar este exato ponto. A popstar é uma pessoa que se acostumou a exercer sua persona 24 horas por dia, o que, muitas vezes, faz com que ela aja desta forma com as pessoas que a cercam, como sua irmã – com quem já não tem mais a devoção fraternal anterior – e até com sua filha, Albertine (Raffey Cassidy), que é, praticamente, criada pela tia devido a falta de instinto materno da progenitora da garota – a propósito, trazer a jovem de volta para dar vida à filha da cantora foi uma ótima ideia para tornar mais palpável a comparação entre o que Celeste era e o que ela é hoje.

Assim, trata-se de uma produção que se destaca por sua estranheza – o que tem dividido opiniões desde a primeira exibição, no Festival de Veneza, em especial, devido ao fato de o filme parecer mais preocupado em iniciar uma discussão/apresentar uma problemática do que oferecer uma conclusão acerca do tema. Contudo, o longa de Brady Corbert se sai bem na realização de sua proposta. A direção possui uma identidade e encontra algumas soluções estilísticas criativas – como a fenomenal narração de Willem Dafoe que permeia a história, adotando um tom levemente paródico e quase sagradamente cataclísmico, o que torna este detalhe a cereja que coroa a trama.

E o roteiro, o qual muitos veem como vazio devido a falta de um grande conflito, passa esta impressão de forma intencional, uma vez que fala exatamente sobre o esvaziamento de uma personalidade em detrimento do sucesso – o que é exemplifica pela fala de Celeste que declara fazer música pop porque não quer que as pessoas reflitam, apenas se sintam bem -; o enredo se utiliza da superficialidade para discutir questões sociais relativas às celebridades – inclusive estabelecendo um paralelo entre terroristas e superstars, ambos desesperados por atenção -, além de analisar como o século XX assistiu a violência ser banalizada, enquanto o século XXI testemunha a Sociedade do Espetáculo de Guy Debord se concretizar.

Por fim, Vox Lux é, sim, um filme interessante e que merece uma chance por adotar uma abordagem peculiar para tratar, como Natalie Portman definiu em Veneza, da “convergência entre a cultura pop e a violência”, ambas transformadas um show público, ao mostrar uma jovem que foi alçada ao status de celebridade graças à capacidade de expressar sentimentos por meio da música, mas que se transformou um uma grande farsa, uma mentira de si mesma – o que fica claro no grande final quando “amor”, “empatia” e “união”, características que formavam a primeira personalidade de Celeste, não passam de palavras exibidas em um telão, pois, agora, são conceitos, há muito tempo, estranhos e incompreensíveis à popstar, que foi consumida pelo Monstro da Fama.

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