O cinema nacional dificilmente me surpreende. Não que isso seja algo ruim, necessariamente. É, tampouco, complexo de vira-lata. A quantidade de produções ruins em Hollywood é enorme. Óbvio que os caras produzem muito mais. Acho que mesmo quando há coisas boas nas obras nacionais, estas são de certa forma, previsíveis. Talvez estejamos acostumados, condicionados a certos vícios os quais devamos tentar nos desprender.

Intimidade entre estranhos é um filme cujo tema principal circunda relacionamento conjugal. Um casal adulto de meia idade que se vê na necessidade de mudança de cidade por motivos profissionais e deve se adaptar à nova realidade. Mas a mudança é só um pano de fundo para diversos problemas comuns a um casal no final dos 30, início dos 40.

Rafaela Mandelli é Maria, casada com Pedro (Milhem Cortaz), um ator aparentemente decadente que vê na oportunidade de trabalho sua última chance de “estourar” em uma nova cidade. Ela, embora carioca, se sente péssima em retornar ao Rio, cidade que a traz péssimas lembranças, como o suicídio de seu pai.

A primeira inconsistência surge logo no primeiro ato. Pode parecer algo pequeno, mas não me concebe a ideia, ainda na escolha de elenco, que a atriz escalada para protagonizar uma carioca “da gema”, não tenha sotaque. Sim, Rafaela Mandelli é brasiliense, e por mais que a pronúncia do “R” seja próxima, o “S” com som de “X” é principal marca do típico carioca. Esta foi a primeira coisa que me incomodou. A segunda, também aparentemente pequena, é o fato de que  o tema “futebol” seja usado para ancoramento de plot e da relação entre o casal, é o fato do filme aparentemente se passar no momento atual, e usarem imagens de jogos do Flamengo, por exemplo, de mais de uma década atrás. Numa cena seguinte, com distância de alguns dias ou semanas, no máximo, mostram-se imagens de um outro jogo do Flamengo, este já muito mais recente. Tem que haver esse cuidado na edição e montagem. Por mais que não seja uma questão central, detalhes fazem toda a diferença. As inconsistências não param por aí. Aparentemente, a mudança para o Rio é inevitável. Maria “larga” tudo em São Paulo pra ficar do lado do companheiro Pedro. No entanto, sabemos que gravações de séries e novelas, comumente, não duram tanto, a ponto de implicar numa mudança de vida assim, brusca. Vários artistas, especialmente atores, vivem em São Paulo e gravam no Rio, por exemplo. Sem necessidade alguma de mudança.

Maria então, passa a viver enfurnada num apartamento aparentemente pequeno e de estrutura ruim, e nunca abre as caixas da mudança. O apartamento não tem mobília. Eles vivem num espaço vazio cheio de caixas, somente com a cama, a televisão, e a piscina de plástico, cuja a mesma permanece impecavelmente limpa. Pedro, apresentado como companheiro fiel e carinhoso, que segurou as pontas de Maria no momento de depressão, repentinamente se mostra mulherengo, egoísta, agressivo e alcoólatra. Neste universo, finalmente se encontra Horácio (Gabriel Contente). O jovem síndico deprimido, que vive sozinho desde que a avó, com Alzheimer, faleceu e levou um chifre da namorada. Ele, amargurado, passa o dia jogando vídeo game e compondo músicas depressivas. A apresentação de Horácio, mais uma vez, trouxe caricaturas quase cômicas, completamente desnecessárias. Na necessidade de apresentar o personagem como um menino mimado da Zona Sul, criado pela avó, o diretor optou por cenas absurdas como a de uma geladeira repleta de Toddynhos, e o pior, na sequência, um armário de despensa completamente abarrotado de miojos.

A trama evolui com Maria se sentindo sozinha e se aproximando de Horácio, o menino mimado. Subitamente os dois deprimidos e sem ocupação aparente, passam suas tardes como jovens sem compromisso, fumando maconha no terraço do prédio, compondo músicas. A aproximação dos dois simplesmente os cura. O menino cheio de amarguras agora ri, demonstra um brilho nos olhos, a mulher que odeia a nova cidade tem um erotismo e vivacidade que hipnotizam o rapaz… (que não sei como chegou a idade adulta comendo apenas Miojo e Toddynho). Enquanto esse aparente romance emerge na trama, Pedro se torna mais ausente e se aproxima de uma atriz, companheira de cena, deixando Maria ainda mais solitária e deprimida. Horácio, por sua vez, está apaixonado. A trama segue rumos tão absurdos e insossos como toda a obra sugere desde o início.

Rafaela Mandelli é uma ótima atriz, porém mal escolhida para o papel, já Cortaz é sempre ele mesmo, enquanto Gabriel Contente está muito cru em cena.

Intimidade entre estranhos é um filme com todos os rótulos clichês que o cinema nacional carrega, desde muito tempo. A atmosfera anos 80 (década perdida, lembremos) dos bairros da Zona Sul do Rio empresta um ar melancólico ao filme. É um drama, ok, mas todos os filmes que têm como cenário as Zona Sul e central do Rio, acabam levando, inevitavelmente, esse estigma para a tela. Juntando todos estes elementos, as inconsistências do roteiro, e ainda, cenas absurdas como a do Miojo (permaneço indignado), Intimidade entre estranhos, que tem um título bem sugestivo, um tema bem abrangente e que geralmente funciona, acaba escorregando em tudo e caindo uma grande piscina de plástico.

 

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