A garota corre floresta a dentro, as roupas sujas com o sangue de seu namorado, astro do time de futebol, assim como seu grupo de amigos que decidiram acampar por uns dias. Atrás dela vinha o assassino com o facão ensanguentado e uma máscara cobrindo seu rosto. Ela era apenas mais uma vitima, de mais um psicopata em mais um filme de slasher que marcou o gênero de terror.

Desde sua concepção o cinema sempre flertou com o fantástico e com o medo. O primeiro filme de terror é chamado de A Mansão do Diabo e fora dirigido por Georges Méliès, em 1896, já nesse início nota-se forte influencia do fantástico e da personificação de uma figura maléfica que tende a ter a vantagem sobre os heróis. Aliado ao uso de um vilão ameaçador ficou tido como regra também a construção de um cenário que em nada facilitasse a vida dos protagonistas, como fica constatado na já mencionada obra de Méliès e também no filme italiano L’inferno, de 1911, cuja a adaptação da jornada de Dante Alighieri pelos círculos do inferno contou com uma montagem de cenário única para a época por saber trabalhar planos de câmera totalmente novos e técnicas de ilusionismo e iluminação.

Porém, no início do século XX, alguns cineastas perceberam que o recém nascido gênero do terror não precisava ficar atrelado ao fantástico. Da mesma forma que pequenos folhetins sobre crimes faziam sucesso nas ruas inglesas, cineastas alemães e franceses faziam experiências em adaptar a violência urbana para as telas. De 1915 a 1916, a cineserie Les Vampires de Louis Feuillade se propôs a contar a história de uma gangue de ladrões de residências em Paris, que se vestiam de morcego e roubavam joias, cometendo até alguns homicídios. Alfred Hitchcock optou por adaptar os crimes de Jack, O Estripador no suspense The Lodger, de 1922, assassino esse que teve muito de sua mística construída sobre as Penny Dreadful (revistinhas de terror de fácil acesso por parte da população mais pobre) na Inglaterra vitoriana do século XIX .

Tida como a primeira grande revolução do cinema mundial, o expressionismo alemão remodelou tudo que se conhecia relacionado a estética de cenário e narrativa. Os cenários lembrariam os pesadelos imaginados nos primeiros filmes de terror, isso é carregado por um novo tom de fantasia, mas agora aliados à enredos que buscavam a construção do suspense apoiado na tendência do homem a cometer crimes por ganância. Em Das Cabinet des Dr. Caligari, o mencionado vilão do título se utiliza de seu servo hipnotizado para sequestrar qualquer um que se oponha as suas vontades. Em M-eine stadt sucht einen morder, um infanticida é caçado por toda uma cidade após seus ataques à crianças atingirem altos níveis.

O subgênero italiano chamado de Giallo na décadas de 1960 e 70 que mudou toda a estética do que se entendia por filmes envolvendo assassinatos. Pela primeira vez uma serie de filmes separados estabeleceu que haveriam regras em um mundo de matanças, regras essas que se tornariam a base para os filmes slasher. Haveria como figura antagonista um misterioso assassino, cuja a vestimenta daria ao publico pouca possibilidade de adivinhar o culpado, seu rosto seria coberto por uma mascara, os planos de câmera focariam em suas mãos enluvadas durante o ato do assassinato, haveria uma figura heroica personificada em um detetive (amador ou não) que aqui representa a lei e ordem frente a barbárie e a identidade do assassino só seria revelada no final.

O diretor Mario Bava lançou em 1963, o primeiro exemplar do gênero chamado La Ragazza che Sapeva Troppo, um suspense aonde uma jovem americana vai visitar uma amiga em Roma e se torna testemunha ocular de um assassinato, culminando então em uma investigação empreendida pela própria em busca do assassino. No ano seguinte, Bava lança Sei donne per I’assassino e novamente evoca e regra de um assassino misterioso que ao longo do filme acumula uma pilha de corpos. Notava-se então que o terreno estava pronto para um novo subgênero surgir.

O ano de 1974 tornou-se especial para um cineasta em particular. Tobe Hooper fora membro ativo do movimento hippie nos anos 60 e em seu primeiro longa, Eggshells, fora bem recebido por trabalhar a relação da juventude da época com o uso de drogas e com o sexo, sendo considerado como uma homenagem ao fim do movimento. Em 74, ele lançou O Massacre da Serra Elétrica com um orçamento de US$ 300 mil e tendo um retorno de US$ 30.859.000, consolidando não só um excelente retorno financeiro mas também as regras para o que seria o slasher e que por sua vez foram herdadas do Giallo, de Mario Bava, com algumas modificações.

Em Massacre da Serra elétrica foram definidas as seguintes regras: o assassino serial manteria sua identidade em segredo. Seus métodos de assassinato não estariam presos a simplesmente esfaquear. As vitimas seriam majoritariamente jovens que a todo instante usariam drogas ou fariam sexo ( a simbologia da pureza perdida e do castigo representado pelo assassino são conceitos muito fortes nos primeiros rascunhos do roteiro de Massacre), o local dos assassinatos variaria entre espaços isolados como florestas e fazendas ou urbanos, como casas ou escolas. Uma das vitimas sempre sobreviveria no final.

Foi no decorrer dos anos 70 que alguns dos melhores exemplares do gênero foram produzidos, gerando receita e consequentemente mais produções. Halloween, de John Carpenter, se consagraria como um dos melhores terrores de sempre ao trazer Michael Myers acumulando uma pilha de corpos em Haddonfield. Comunhão traria um dos percussores dos assassinos seriais do cinema a ter uma vestimenta estilizada (apesar do esquecimento a que a obra caiu) ao utilizar uma capa de chuva amarela e uma máscara de Halloween translucida. Natal Negro quebraria algumas regras impostas por Massacre ao ambientar sua história dentro de uma república universitária, quando um maníaco foge do manicômio e se esconde dentro da casa, quebrando a sensação de segurança do cotidiano. Mensageiro da morte traria novamente esse conceito em uma das sequencias iniciais mais assustadoras da história e que também caiu no esquecimento.

Eis que chegam os anos 80 e com eles o auge do subgênero Slasher, abarrotando salas de cinema e locadoras com toda a sorte de histórias que, apesar de exalarem criatividade nas mortes e por vezes violência, cada vez mais careciam de orçamento e portanto contavam com elencos fracos e produções cada vez mais amadoras. A estreia de Sexta feira 13 (o primeiro das infinitas sequencias) em 1980, introduziu Jason Voorhes ao panteão dos grandes vilões do cinema, seguiu a risca as regras estabelecidas por Massacre e contou com o efeitos especiais de Tom Savini, que referencia absoluta do gênero.

Na esteira do sucesso de Sexta feira 13 vieram uma enxurrada de obras que visavam copiar seu sucesso estrondoso. Dia dos namorados macabro trouxe o temível minerador matando adolescentes de todas as formas com sua picareta. Acampamento sangrento traria uma história nos moldes da saga Jason ao ambientar uma serie de assassinatos em um acampamento de verão, porém com o adicional de conter um dos finais mais assustadores da história do cinema. A Morte convida para dançar teria como premissa um assassino serial que vitima adolescentes em um baile escolar. A hora do pesadelo, de Wes Craven, marcaria a estreia de Freddy Krueger e suas técnicas de matar adolescentes em seus sonhos.

O excesso de produções ( e sequencias dessas produções) levaria a um consequente desgaste do subgênero parecido com o que ocorreu com filmes de faroeste na metade do século XX. Os anos 90 porém guardariam um ultimo trunfo para o slasher quando o diretor Wes Craven e o roteirista Kevin Willianson se juntaram e deram inicio a saga Pânico, em 1996. Com o objetivo em mente de reacender o interesse do publico por filmes de assassinato, Pânico nasceu com a premissa de não ser uma cópia de modelos que deram certo no passado e que geraram o desgaste desses filmes, mas ser uma paródia não cômica das regras estabelecidas por Mario Bava e Tobe Hooper.

Em outras palavras, a história não seria cômica e carregaria seu próprio suspense porém constantemente ela brincaria com convenções do subgênero como a ultima sobrevivente, formas criativas do assassino agir, vestimenta estilizada, retidão sexual e etc. Por um tempo o sucesso de Pânico motivou o surgimento de outra franquia como Eu sei o que vocês fizeram no verão passado, que sem qualquer originalidade não copiou o êxito da saga de Craven e Willianson. Pânico também pode ser considerado o ultimo grande exemplar do slasher que, apesar de obras esporádicas, tem perdido espaço para o também subgênero de assombração.

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