Para criar um registro histórico e traçar um panorama do humor no Brasil, a atriz Ingrid Guimarães idealizou a série documental ‘Viver do Riso’. Sucesso no canal Viva, ela ganha uma nova versão na Globo, que vai ao ar a partir de segunda-feira, dia 1. Reeditado e com novas imagens de arquivo, o programa mostra a participação das mulheres no gênero, discute os limites do humor, lembra as duplas mais marcantes e homenageia o mestre Chico Anysio, que tem um dos cinco episódios totalmente dedicado a ele. A série tem supervisão artística de Marcius Melhem e Daniela Ocampo e direção de Tatiana Issa, Guto Barra e Raphael Alvarez.

“Eu tenho 25 anos de carreira e, sem dúvida, ‘Viver do Riso’ é um dos meus projetos mais importantes. Fiquei dedicada a ele durante um ano inteiro, entrevistei 90 pessoas, foi uma experiência pessoal transformadora. Quero que seja um registro histórico e, daqui a 50 anos, mesmo que eu não esteja mais aqui, meus netos vejam como o humor foi importante para esse país”, diz Ingrid.

A inserção de imagens de arquivo ajuda a tornar o material ainda mais rico. “Essa é uma mudança incrível na nova versão do projeto, que faz muita diferença”, adianta Ingrid. “O acesso ao acervo foi muito impactante, deu um colorido e ajudou a enriquecer o conteúdo. Estamos acostumados a ouvir e usar as referências que temos na cabeça. É muito diferente ouvir e, na sequência, poder ver o esquete”, explica Daniela Ocampo.

O episódio de estreia presta uma homenagem ao ícone Chico Anysio. “Temos uma entrevista comprida, rica e super pessoal da Ingrid com o Bruno Mazzeo, na qual ele conta detalhes de como o pai era em casa. Para quem está assistindo, a sensação é de estar na casa do Bruno, ouvindo ele contar histórias da família”, conta Daniela Ocampo. Na terça-feira, dia 2, as duplas de humor são o destaque. “As duplas são um clássico da comédia. A maior dupla da nossa história foi formada por Oscarito e Grande Otelo, mas tivemos muitas outras. Fazendo as entrevistas desse episódio, me dei conta que eu e Heloisa Perissé formamos a primeira dupla feminina de comédia do Brasil. Ficamos 15 anos juntas e fizemos de tudo”, lembra Ingrid.

As mulheres no humor são tema do terceiro episódio da série, o preferido da apresentadora. O quarto fala sobre os limites no humor. O último episódio mostra como envelhecer no humor e presta uma homenagem a Jô Soares. “Todos os meus entrevistados citam o Jô como o maior exemplo de um comediante que soube envelhecer na frente das câmeras. É muito bonito de ver”, conta Ingrid.

Confira abaixo a entrevista com Ingrid Guimarães:

Qual o seu objetivo ao criar o ‘Viver do Riso’?
Somos um país sem memória e não apenas no que diz respeito ao humor. Quero que esse registro fique em várias plataformas para que, daqui a 10 anos, se a minha filha precisar pesquisar sobre humor para um trabalho da faculdade, encontre esse material como facilidade. O Brasil é um país de comediantes natos. Um país que tem a capacidade de transformar a dificuldade em humor.

Que balanço você faz de ‘Viver do Riso’?
É um projeto absolutamente pessoal, que veio de uma questão minha de, aos 45 anos e já tendo feito de tudo, refletir sobre como vou envelhecer nessa profissão. A maneira como a comédia era tratada, sendo vista como gênero fácil, sempre me incomodou. Muitas pessoas têm esse olhar sobre a comédia, como se ela fosse o primo pobre da arte, como se fosse um gênero fácil, como se fazer chorar tivesse mais credibilidade. Essa questão sempre me intrigou. A gente, que vive disso há muitos anos, sabe o quanto fazer rir é difícil. É preciso manter o humor sempre fresco. Eu fiz uma peça durante 11 anos e algumas piadas, depois de cinco anos, não funcionavam mais. Por outro lado, você pode continuar com uma peça dramática igual a vida toda. Para envelhecer no humor é preciso manter o frescor, a novidade, acompanhar o que está acontecendo na internet, é um grande desafio.

Pode falar um pouco sobre cada episódio que será mostrado pela Globo?
Estreamos com uma linda homenagem a Chico Anysio. Todas as 90 pessoas que eu entrevistei citam o Chico Anysio como a maior unanimidade do humor. Como ele não estava mais entre nós, fiz uma entrevista muito bacana com o Bruno Mazzeo, seu filho, que eu choro toda vez que assisto. Esse episódio é de uma emoção enorme. Em seguida, temos um episódio muito rico sobre as duplas de humor, um clássico da comédia. Nosso humor foi muito contado por muitas dessas duplas. A maior delas foi Oscarito e Grande Otelo, mas temos muitas outras: Fernanda Torres e Luiz Fernando Guimarães, Marisa Orth e Miguel Falabella, Andréa Beltrão e Fernanda Torres, eu e Heloisa Perisse.

O terceiro episódio, sobre as mulheres no humor, está lindo. É o meu preferido. O mais legal é observar que as próprias mulheres não percebiam o quanto nós vivíamos em um mundo tão machista. O humor era um universo machista. E é bacana ver como os homens reconhecem isso no programa e não fariam esse tipo de cena machista hoje. O episódio sobre limites no humor também traz discussões muito interessantes. No encerramento, falamos sobre como envelhecer no humor e prestamos uma justa homenagem ao Jô Soares. E assim como ele há outros, como Renato Aragão e o Dedé, que continuam na ativa, sempre com novos projetos.

Você cita o episódio das mulheres no humor como o seu preferido. Tem um pouco da sua história lá também?
Comecei a prestar muita atenção na questão mulher. Sou atriz de uma geração de transição. Passei pela fase em que a mulher comediante ainda era coadjuvante, época em que os programas de comédia eram feitos só por homens. Meus ídolos eram Jô Soares, Chico Anysio e Os Trapalhões. Não tínhamos referências de mulheres no humor. Como isso sempre me incomodou, fiz a minha própria história. Criei o ‘Cócegas’ com a Heloisa Perissé, uma peça super contemporânea; fiz o ‘De Pernas pro Ar’, um dos primeiros filmes em que a mulher comediante era a protagonista e fala de prazer e sexo; participei e estava presente em várias mudanças no humor. Por que as comediantes mais velhas não são reverenciadas como as grandes atrizes dramáticas? A função maior dessa série é fazer uma homenagem aos grandes comediantes. Como não existe uma escola de humor, a gente só é o que é porque alguém veio na nossa frente. Só consegui fazer ‘De Pernas pro Ar’, ‘Cócegas’ e Leandra Borges porque um dia a Dercy Gonçalves veio, falou um tanto de palavrão, colocou o pé na porta e foi protagonista em uma época dominada pelos homens. Assim como a ‘TV Pirata’ abriu portas para mim, e depois eu abri portas para a Tatá Werneck e para a Dani Calabresa. Hoje as comediantes são protagonistas de campanhas publicitárias. Quando eu comecei, esse espaço era das mocinhas de novela. Fomos conquistando espaços, assim como a mulher foi conquistando espaço na sociedade.

Além de apresentar e conduzir as entrevistas, você também participa dando o seu depoimento. Como foi esse processo?
Essa não era a ideia inicial mas, no meio do projeto, a diretora Tatiana Issa me disse que ia mudar tudo: “Você vai dar o seu depoimento também”. Eu falei que não ia, que era coisa ego trip. Sou muito jovem para fazer qualquer análise. Mas ela disse que eu tinha muita propriedade sobre o assunto, foi na minha casa, colocou uma luz bem baixa na minha sala, conversamos durante quatro horas e ela gravou tudo. E, realmente, eu me toquei que tenho 25 anos de humor e fui revendo a minha trajetória. Não queria que fosse um programa sobre mim, mas que eu fosse um canal para homenagear as pessoas. Quando comecei a falar, fiquei muito emocionada.

‘Viver do Riso’ vai ao ar entre os dias 1 e 5 de abril, depois do ‘Jornal da Globo’.

Foto:  Globo/ Paulo Belote

DEIXE UM COMENTÁRIO

Please enter your comment!
Please enter your name here