Quando Jordan Peele lançou Corra, em 2017, imediatamente ele foi saudado como um reinventor do gênero terror/suspense pela qualidade da ambientação e condução da história com a qual a obra tratava. Porém, além de todos os méritos técnicos, Corra chamou a atenção por um discurso critico ao racismo entranhado na sociedade dos Estados Unidos. Racismo esse que muitas vezes passa despercebido e até se confunde com posturas educadas.

Em Nós, Peele volta a tratar de um tema relativo ao momento atual da sociedade americana, ao acompanhar uma família viajando rumo a uma casa de veraneio próximo a praia. O cenário, entretanto, é familiar a um dos membros do grupo cujo um trauma se confunde com o local. É neste ambiente que o clã principal passa a ser vitima de uma trama sombria envolvendo a obsessão de um segundo grupo.

Como o filme anterior do diretor, Nós não é uma obra fácil de compreender a principio por conter elementos a parte do que o cinema mainstream ( aquele voltado a grandes audiências) normalmente trabalha. Se na obra anterior, o racismo discreto que eventualmente se torna expressivo é abordado em meio a uma trama até mesmo mirabolante, aqui não é diferente. Conforme o grupo antagonista à família principal vai se mostrando mais e mais perigoso é difícil não lembrar da máxima de Thomas Hobbes: “ o homem é o lobo do homem”. Peele conduz a narrativa, conforme vai desvendando o mistério ao entorno dos antagonistas, de maneira à mostrar que o que mais se deve temer é o próprio ser humano e ainda mais aqueles que você mais conhece.

O cenário entra nesse momento mais como um easter egg que compõe a mensagem filosófica do que uma decisão gratuita de local genérico. A casa localizada em um ambiente californiano, numa vizinhança deserta e que se torna palco de tentativas de homicídios emula o local em que Sharon Tate fora assassinada nos anos 60 por membros da gangue de Charles Manson. O modo sádico com que a execução foi orquestrada condiz com a frase de Hobbes e é adaptada por Peele de maneira a, não só passar sua mensagem, mas também utilizar a locação isolada padrão de filmes do gênero como uma ferramenta narrativa de opressão aos personagens, inicialmente utilizando-a como um ambiente animado e claro para depois torna-lo escuro e amedrontador.

Conforme a história vai avançando e a relação entre a protagonista, interpretada por Lupita Nyong’o, e os acontecimentos vai se desenrolando, Jordan Peele põe na mesa o que talvez seja a principal critica do filme: a mudança de postura de certos setores da população após a eleição de Donald Trump. Essa visão ganha fundamento quando os eventuais personagens assassinados vão sendo eliminados por indivíduos intimamente ligados a eles, o que remete às diversas criticas sociais tecidas pós 2016, quando pessoas que nunca se imaginaria que votariam no atual presidente admitiam que o fizeram.

O arco final, envolvendo o que um dos personagens caracteriza como uma “arte performática”, é a reprodução da grande obsessão do governo Trump em 2019, no caso a construção do muro na fronteira mexicana. Tem-se uma facha de pessoas de braços dados formando uma enorme corrente que atravessa o país. Não só fechando-o mas sendo construída pelos indivíduos ali criados para simbolizar os eleitores de Trump.

Do ponto de vista técnico, Nós resgata o uso de poucos cenários que no passado caracterizou os filmes de terror (principalmente os de baixo orçamento). Tem-se a casa de verão previamente mencionada que assume uma função narrativa dupla entre hospitalidade/ameaça. A praia também mencionada que, devido a fotografia clara, mantém o tom de comédia que é a especialidade natural do diretor, que faz também interessantes contrastes entre os personagens e suas sombras  (algo que será melhor trabalhado no decorrer do enredo), ao passo que momentos envolvendo o subterrâneo contam com iluminação amarelada ( detalhe que ela não é escassa) e criam tensão no ambiente.

A trilha sonora formada por violinos surge em momentos chave de tensão, a opção técnica de não desperdiçá-la em qualquer situação é acertada por não desgastar o espectador ao seu impacto. Sua composição lembra muito o estilo elaborado por Bernard Herrmann em Psicose devido a condução estridente sem deixar de ser estilizada.

Por fim, Nós é um filme que pode ser avaliado de duas maneiras: como um competente exemplar do terror ou como obra criada por um cineasta ciente do tempo em que vive e das dificuldades que isso implica. Em ambas as formas a execução é precisa. Os estilos de narrativa clássicos dão uma condução confortável ao filme, mostrando que o terror procedural ainda é eficaz no publico atual. Já as criticas são direcionadas a relação entre a suposta natureza hostil do homem evocada por Hobbes e a vitória de um político que muitos consideram como perigoso.

Há um mérito do roteiro em optar pela sutileza intelectual de mostrar por meio das situações e representações simbólicas o teor crítico do cineasta do que seguir pelo caminho dos discursos prontos que não são absorvidos pela plateia. Da mesma forma que ocorreu em Corra, Peele estabelece por meio de elementos ficcionais um quadro geral aterrorizante que se encontra na realidade, estabelecendo definitivamente sua arte como sendo a o ato de transmitir seu ponto de vista para a plateia geral e relegando a eles a possibilidade de interpretar o que viram como apenas mais um filme de terror ou como um retrato da realidade.

Se anteriormente Jordan Peele estabeleceu como ponto central de sua obra a ironia sobre o racismo velado, em Nós ele entrega um manifesto opinativo sobre o lado sombrio do ser humano em um plano geral.

 

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