Quadrinhos é uma mídia originalmente voltada para o público infantil, seja nas tirinhas de jornal muito publicadas no início do século XX, no surgimento dos super heróis na Action Comics #1, na criação de personagens voltados para dialogar diretamente com esse público (tais como o Robin na DC e o Bucky na Marvel) ou no estilo de narrativa fabulesco que muito marcou as primeiras aventuras de Homem – Aranha e X-Men, as histórias em quadrinho sempre carregaram, até mesmo durante a Era de Bronze, uma moral de heroísmo formulada para o parcela mais jovem dos leitores.

Porém, o terreno que separa uma narrativa leve mas eficaz de uma outra sem graça e abobalhada sempre foi nebuloso. Enquanto que comédias vazias e os chamados “besteiróis” inundavam o mercado cinematográfico com histórias vazias e despretensiosas, o sentido de comédia simples passou a ser entendido como necessariamente sendo apelativa e repetitiva. Até mesmo os bem sucedidos filmes da Marvel muitas vezes não passaram imunes a esses problemas e na busca de uma aceitação mais efetiva dos espectadores à seus filmes, apelaram para essas vias.

Essa ligeira reflexão acerca da comédia em muitos dos blockbusters modernos é importante pois é justamente na comédia efetiva, que não necessariamente é inteligente como os roteiros de Monty Python nem esdrúxula como na vasta maioria da filmografia do Adam Sandler, apresentada em Shazam, que o filme demonstra sua força e um diferencial inédito na direção adotada pelos filmes do UCDC (Universo Cinematográfico da DC). Para melhor analise, a crítica será dividida em sessões para melhor ser discutido a singularidade da obra no já mencionado universo, as qualidades e fraquezas do filme em si e a conclusão.

Desde que sua concepção, o UCDC teve suas fundações pautadas no sucesso absoluto da trilogia do Cavaleiro das trevas, de Christopher Nolan. Por consequência as consequências dessa escolha obrigariam os primeiros filmes da DC a seguirem a mesma cartilha da trilogia, utilizando uma estética de cores acinzentadas ou escuras, um profundo sentimento niilista na construção dos personagens e, talvez acima de tudo, a realidade como regra magna na condução dessas histórias.

Porém, o resultado não fora como o esperado e já no filme de estreia, Homem de Aço, muitas das críticas caíram encima do tom pesado que contrastava com a simbologia do Superman, afirmando que o microcosmo do personagem nas HQ eram o oposto do que o diretor Zack Snyder, e justiça seja feita o até então atuante produtor Christopher Nolan, propuseram para o personagem.

O filme seguinte, Batman vs. Superman, na mesma proporção em que mergulhou na temática sombria e realista sofrera retaliações do público por tentar maquiar um roteiro problemático com um filtro escuro. Entretanto, nota-se que o filme seguinte, Esquadrão Suicida, e o próximo, Mulher Maravilha, começaram a tentar mudar o tom de abordagem dos personagens. O primeiro passou por refilmagens emergenciais que mudaram o que seria mais um exemplar do ideal sombrio para algo mais próximo do pop style popularizado por Guardiões da Galaxia, enquanto o segundo mirou uma representação mais heroica e remetente ao material fonte da personagem do que as obras anteriores propuseram.

Shazam mostra-se então, do ponto de vista como uma peça integrante desse universo, uma concretização do que funcionou em Mulher Maravilha e do que deveria ter sido feito nos primeiros filmes do UCDC. Melhor dizendo, ele resgata tanto o senso heroico quanto cômico do personagem da sua fase dos Novos 52, aonde o fato dele ser uma criança que vira um adulto realmente é tratado como tal no fato da sua mentalidade se manter juvenil e por consequente suas ações serem imaturas e atos de heroísmo espontâneos.

O outro elemento que fora desconsiderado em Homem de Aço e em Shazam se mostra sua principal qualidade é a priorização em adaptar a atmosfera do universo do personagem para o filme, ao invés de priorizar uma forma padrão de se fazer todos os filmes. Por exemplo, um personagem leve como Shazam não funcionaria se visto pela ótica de uma atmosfera sombria da trilogia do Nolan. O diretor David Sandberg percebeu isso e trabalha Shazam como uma aventura infanto-juvenil.

A comédia mencionada previamente é o motor da narrativa por justamente ser sincronizada com o tom aventureiro e por tanto se desvincular de tudo feito pela DC anteriormente. Ela funciona por se apoiar em situação espontâneas, mais precisamente quando o protagonista Billy Batson ainda está se acostumando com seus poderes. Na tentativa de entender a extensão dos mesmos, ele protagoniza cenas genuinamente boas e que remetem ao primeiro Homem de Ferro, quando Tony Stark demonstrava dificuldade em controlar o voo da armadura. Billy e seu irmão adotivo Freddie protagonizam assim momentos surreais de testes envolvendo os poderes de Billy e sempre sendo pautados no referencial máximo daquele universo que é o Superman. O filme funciona por ser algo orgânico a aquela realidade.

Do ponto de vista de execução, Shazam é honesto e joga em terreno seguro. O que quer dizer que o material e atmosfera proposto pelos trailers revelam exatamente a proposta do filme. Fora que, o filme segue fielmente a formula de aventuras adolescentes envolvendo jovens com poderes criando uma atmosfera que não incita grandes riscos ou tensão quanto a sobrevivência do protagonista.

Não só o ambiente seguro como alguns takes utilizados pelo diretor David Sandberg corroboram muito para um inesperado sentimento de nostalgia que Shazam remete aos primeiros filmes de super-heróis no inicio dos anos 2000. Como exemplo, tem-se em determinada cena o Shazam partindo a voo de determinado lugar e a câmera continua posicionada no mesmo ponto e no primeiro plano dela fica em evidência uma figurante expressando um semblante de espanto.

Outro elemento nostálgico é a famosa “escolha do herói”, que é aquele momento em que o protagonista é confrontado com uma escolha moralmente complicada imposta pelo vilão. Assim como utilizado em X-Men (2000) e Homem-Aranha (2002), o dilema imposto pelo roteiro dificilmente cria um beco sem saída para o herói e, mesmo que camuflado pelos ares leves adotados pela obra, soa como anticlímax,

Outro defeito recorrente nos filmes da DC é o CGI. Da mesma forma que a construção de cenário falhou evidentemente na maior parte dos filmes ate o momento atual, com uma exceção que é Aquaman, em Shazam fica evidente que não há um enquadramento natural entre os personagens em cena e prédios acinzentados criados por computação gráfica, por exemplo.

Por fim, o filme nada mais é do que uma ótima comédia adolescente que não se esforça muito e falha ao passar um conteúdo mais falsamente profundo ou que preguiçosamente apela para piadas gratuitas ou de mal gosto. É uma obra sobre crianças vivendo em um mundo de super heróis, aonde uma delas se torna um deles e aos poucos vai aprendendo a aceitar esses poderes assim como vai amadurecendo enquanto individuo.

Todo o elenco infantil consegue suportar positivamente o filme, com cada uma das crianças possuindo uma personalidade diferente da outra mas se complementando. Destaque para Jack Dylan Grazer que interpreta o irmão adotivo de Billy Batson e seu sidekick. É dele que parte a maior parte das referencias aos outros heróis do UCDC, bem como os momentos envolvendo os treinos de Billy para aprender a controlar suas habilidades.

Mark Strong entrega um vilão caricato que faz caras e bocas, sendo que isso não é um defeito. De certa forma, a interpretação de Strong resgata os vilões exuberantes dos princípios dos filmes de super-herói e, assim como no passado esses antagonistas não representavam perigo algum ao personagem principal, aqui ele segue a cartilha mas que também não tira a graça de vê-lo tentar ser mal e atingir seus objetivos. Sua origem e desenvolvimento na vida adulta também fazem contraponto ao caminho do Shazam, mostrando que enquanto o herói escolheu o lado correto, o Dr. Silvana de Strong cedeu a forças do mal e se tornou o oposto.

 

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