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Compra-me um revólver: Um projeto raso de distopia

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Em tempos de crise, é muito comum que a arte encontre meios de retratar e debater aquele período, muitas vezes de forma alegórica. E, aparentemente, este é o objetivo do longa “Compra-me Um Revólver”, dirigido por Julio Hernández Cordón. A trama se passa no México, sem uma data definida, e os cartéis de drogas dominaram a região, que sofre uma diminuição populacional por causa da falta de mulheres, as quais passam a ser perseguidos e sequestrada pelos criminosos. Esta premissa é estabelecida logo no primeiro minuto, antes de a produção apresentar seus protagonistas.

Em meio a este cenário, está Huck (Matilde Hernández), uma garota de não mais que 10 anos, que vive com o pai, Rogelio (Rogelio Sosa), um viciado que se vê obrigado a tomar algumas medidas radicais para proteger a filha. Assim, a menina só usa roupas masculinas e uma máscara, vive presa a uma longa corrente e tem que se esconder quando os membros do cartel surgem no campo de beisebol do qual o pai toma conta em troca de drogas. A realidade dura e cruel da garota é quebrada apenas por seus momentos com Rafa (Ángel Rafael Yanez), Tom (Wallace Pereyda) e Ángel (Ángel Leonel Corral), trio que vive uma dinâmica de “Meninos Perdidos” e treinam para recuperar o braço de um deles, arrancado como punição por roubo.

Com esta narrativa, obviamente, o filme – cujo roteiro foi escrito pelo próprio Cordón – pretende tratar tanto sobre o machismo – principalmente nos países hispânicos latino-americanos – quanto sobre a violência instalada pelos cartéis na região como forma de exercer e manter poder sobre a população e outros grupos menores. Neste aspecto, o design de produção faz um excelente trabalho ao mostrar essa realidade, que parece tanto distópica quanto contemporânea, pelos olhos de uma criança – como a fumaça roxa produzida pelo pai enquanto se droga, ou os corpos de uma chacina representados por bonecos de papelão.

O problema está no desenvolvimento da trama e no abandono dessa visão mais “fabulosa” em alguns momentos. Apesar de ter uma temática clara e uma direção firme, este é aquele tipo de filme que só anda para frente porque os protagonistas são burros e só tomam péssimas decisões. No caso do pai, o vício em drogas até justifica a falta de coerência/objetividade, porém, a história do longa só acontece porque Huck comete o mesmo erro mais de uma vez; mesmo se tratando de uma criança, ela vive esta situação desde que nasceu, então a inconsequência e teimosia infantil ficam deslocadas e só servem porque é o único meio que o enredo encontrou para seguir a diante.

Com isso, o espectador tem a sensação de a história estar se repetindo e piorando, a fim de ficar cada vez mais dramática, o que, devido a falta de aprofundamento da trama, não gera o efeito esperado. Por exemplo, apesar do bom desempenho de Matilde Hernández, Huck não é uma personagem cativante – mesmo sendo uma crianças, o que sempre desperta ternura –, ela é apenas extremamente irritante – até no clímax dramático do longa, uma cena dúbia e chocante, é impossível se compadecer ou torcer por ela. E, assim, sem uma protagonista carismática e sem aprofundar os temas que propõe, “Compra-me Um Revólver”, após menos de uma hora e meia, depositando o destino da sociedade nas mãos das crianças. Poderia ser um ótimo discurso, mas, considerando o trajeto até ali, soa apenas inverossímil, pois ao focar apenas nas ações daqueles dois dias, desconsiderando o passado e o futuro, e sem questionar o presente – coisa que toda distopia deve fazer, de alguma forma –, a única pergunta na cabeça do público é: como Huck e seu pai sobreviveram por tanto tempo sendo tão estúpidos?

 

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