A volta por cima de Maria da Paz, com sua força e coragem, é o ponto central da novela. Que mensagem você pretende passar para o público?
Walcyr Carrasco – A novela traz uma mensagem de superação, coragem, esperança, amor e muita emoção. Maria da Paz é a mulher que tem garra, fibra, começa a vender pedaços de bolo na rua e constrói uma fábrica e uma rede de confeitarias. Também é frágil afetivamente e apaixonada. A trajetória dela reflete a vida de muitas mulheres brasileiras. Eu quero fazer uma novela com uma mensagem positiva que faça bem ao público, que seja um momento positivo no dia dele e que dê forças para a batalha diária.

Em ‘A Dona do Pedaço’, a gente vai ter personagens fortes e determinadas como a Maria da Paz, por exemplo. É uma novela onde o feminino tem protagonismo, certo?
Amora Mautner – Essa novela é bem contemporânea e moderna. Walcyr é um autor que carrega essa marca. Ele é muito conectado e traz isso para o texto e para o público. Nesse momento, a gente tem uma novela especialmente feminina, com força, com potência. Temos uma heroína que vai à luta pelo que quer, com bons valores, com bondade no coração e vence. Além disso, é uma novela que começa no matriarcado. Na família dela, a grande chefe é a Dulce, que está sendo interpretada por Fernanda Montenegro, nossa sacerdotisa das artes. É uma honra à parte trabalhar com ela.

Para a personagem Maria da Paz, você se inspirou em alguém? E tem alguma história da infância envolvendo bolos, doces?
Walcyr Carrasco  – Minha avó paterna, Rosa, era uma grande cozinheira, fazia doces maravilhosos. Então cresci com esse amor por ela e seus doces. Adoro fazer bolos, ver a massa sendo batida, adoro comer os bolos! Cozinhar é muito dentro do meu universo. E eu tenho um apreço especial pela culinária. Mas também lido com a ideia de que as pessoas podem subir na vida utilizando aquilo que já sabem, um dom, e a vontade de lutar e trabalhar. Novamente, é a mensagem de esperança, da certeza de que todos podem encontrar seu lugar no mundo.

A novela conta a trajetória de Maria da Paz e apresenta outras personagens femininas fortes. Você costuma trazer para suas obras essas figuras. Pode falar um pouco sobre isso?
Todas as minhas tramas, ou a maioria delas, destacam a força do feminino. Em ‘A Dona do Pedaço’, elas são mulheres vigorosas, que se impõem dentro de um universo violento, onde a morte integra a rotina delas. Por exemplo, Dulce, sendo interpretada de maneira incrível por Fernanda Montenegro, fica entre o amor extremo pela família e uma matriarca que comanda um clã de justiceiros, com um pulso inigualável. Eu sei que esse personagem vai surpreender, e estou muito satisfeito que a Fernanda tenha aceitado esse papel.

A novela foi gravada no interior do Rio Grande do Sul e em São Paulo. O que foi determinante para a escolha dessas cidades? Gravar em diversas locações traz mais realismo para o espectador? O que isso agrega de positivo do ponto de vista da direção?
Amora Mautner – Locação é fundamental para tudo porque contextualiza de uma maneira muito orgânica o que está acontecendo. Não só do ponto de vista do que representa em imagem, mas também da atuação dos atores que estão respirando e sentindo aquela outra atmosfera. Vemos os hábitos reais, a parede real, ela tem vida, textura, chão. Escolhemos o Sul também porque essa região tem um céu muito baixo, sem nada obstruindo. Então, ele “morre” muito embaixo. Queria ter isso para poder fazer uns landscapes (composição de imagens) épicos e trabalhar o matte painting, uma técnica de computação na qual a gente usa colagens de imagens reais. É como se a gente pegasse pedaços perfeitos de uma imagem real, como céu ideal, o mar ideal e a montanha ideal, e colasse tudo numa imagem que não existe. Para isso, preciso ter uma área grande, ampla, para o Tony Cid, supervisor de efeitos especiais, um artista talentoso que está comigo nessa novela, poder atuar. Precisamos ter uma natureza real para poder fazer essas colagens e chegar à imagem ideal. Também fomos em busca de uma luz mais filtrada para fazer a nossa paleta de temperatura e de luz.

 Sobre a trilha sonora, teremos grandes destaques, algumas regravações… O que você pode nos falar sobre isso?
Amora Mautner  – A abertura vai ser uma regravação de “Está Escrito”, interpretada por Xande de Pilares. A trilha sonora traz um conceito popular conversando com western contemporâneo e indie, além de trilha original produzida por Eduardo Queiroz, que assina a produção musical. Também teremos versões originais e outras novas para músicas como “Cheia de Mania” e “Evidências”, sendo a última o tema do casal Amadeu e Maria da Paz. Acho que vai ficar muito legal. Estamos muito felizes. É uma novela que, também na trilha sonora, traz otimismo. Mesmo tendo essa coisa de sofrimento, tem uma esperança no fim.

Em ‘A Dona do Pedaço’, através das personagens Virgínia, Josiane e a stalker Kim, o universo da moda e das digital influencers está em destaque. Qual a sua relação com este universo? Se inspirou em alguma digital influencer para construir as personagens?
Walcyr Carrasco – Eu acho apaixonante esse mundo dos influenciadores digitais e da internet em geral. Como sou muito conectado, fui verificar como as coisas acontecem, como funcionam… Foi um trabalho de reportagem, praticamente. Vou mostrar Jô (Agatha Moreira) comprando seguidores. Isso acontece muito! Descobri outras coisas também, mas só no decorrer da novela.

Qual a sua expectativa para ‘A Dona do Pedaço’, trabalhando ao lado de Walcyr Carrasco?
Amora Mautner – Walcyr é um autor muito amplo. Escreve, traduz livros, faz peças, vai na estreia e escreve essa novela, que eu estou considerando maravilhosa. Não consigo parar de ler. Estou muito feliz de ter a chance de estarmos juntos porque ele tem uma unicidade, se comunica com todo o Brasil de uma forma muito específica. Sabe o que o público gosta. É uma sorte para quem trabalha com ele porque é como se ele ouvisse e trouxesse isso para perto da gente. Leio as cenas e me emociono, projeto no público e penso: ‘não tem como não se emocionar com isso’. Estou feliz com a oportunidade de ter esse texto nas mãos.

 Quais foram suas principais referências?
Amora Mautner – Minhas referências foram os filmes de melodrama. Tem um diretor que se destaca entre todos os maravilhosos, que são muitos, que é o Douglas Sirk. Revi todos os filmes dele, com foco na dinâmica do melodrama para entender o tom, com a intenção de trazer isso para hoje em dia. Porque o melodrama desta época a que me refiro é um pouco mais antigo. Estamos tentando achar esse tom para que o público receba essa novela e se emocione diariamente.

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