Shalom para todos aqueles que estão apreciando a volta do terror original às telonas! Chega dia 13 de junho o longa israelense A Lenda de Golem, que apresenta originalidade e cultura judaica em uma obra premiada. Dirigido pelos irmãos Paz, o filme conta a história de Hanna (Hanni Furstenberg), uma mulher judaica que vive em uma vila judaica na Lituânia em 1673. Desafiando a tradição e regras da mitologia judaica, decide invocar uma antiga criatura para proteger sua vila, que foi invadida por pagãos. Do barro e do ritual, um garoto ganha vida e faz de tudo para proteger sua criadora.

Existem duas importantes vertentes a serem exploradas nesse longa. Além de analisá-lo no geral, é importante perceber que o filme traz duas interessantes reflexões como pauta. A primeira e mais óbvia é o feminismo, abordado de forma sutil com uma personagem que não se contenta em ficar em casa e servir somente ao marido.

Hanna busca por conhecimento por meio dos livros que o marido traz em suas sessões de estudo no templo. Ela se sente inferior porque o casal já perdeu um filho uma vez. Agora, ela não quer que haja a possibilidade de isso ocorrer de novo, e assim procura métodos contraceptivos com a curandeira da vila para não engravidar. Sua força é explorada no paralelismo entre duas cenas.

Na primeira cena de sexo com o marido, em que fica por baixo e não chega a consumar o ato, e na segunda, mais tarde no longa, em que, mais confiante de si, se posiciona por cima e explora seus desejos como uma mulher empoderada. A diferença nos sentimentos é clara e demonstra a recuperação de sua própria percepção de si, revelando o que as mulheres da época sentiam, mas por costumes, medo e tantas outras razões não aderiam também.

Falando nesses costumes, as normas da religião judaica são muito bem exploradas no longa em cenas como a demonstração de luto dos homens da comunidade (que rasgam seus colarinhos a fim de sinalizar o sentimento de luto), os ensinamentos do Torá e é claro, a criação do Golem. Esse personagem faz parte do folclore local e traz a segunda questão de interessante reflexão do filme.

Considerando o contexto atual do cinema, em que as obras são baseadas não somente em roteiros, mas em livros, peças, spin-offs de outros personagens e antigas lendas, o folclore brasileiro, tão rico e diverso deveria ser explorado com a mesma profunda e intensa abordagem de A Lenda de Golem. O gênero terror vem crescendo no Brasil e se podem tirar algum aprendizado do que tem se visto gerar sucesso hoje em dia, são obras como A Bruxa e Midsommar, longas que se debruçam totalmente em lendas e crenças míticas.
E é nisso que A Lenda de Golem se torna bem-sucedido: em apresentar uma história original, relacionada a uma cultura que não é o catolicismo dos padres, exorcismos e espíritos com um enredo redondo. O único pecado desse terror histórico é o investimento em áudio e efeitos especiais. Fica claro que eles trabalharam com o melhor que puderam financeiramente, mas sim, há cenas em que o efeito do sangue é muito claramente editado no after effects, além de a respiração ofegante em diversos momentos soar como um “complexo de Darth Vader” já que ninguém na cena precisa desse destaque respiratório na edição de áudio. Por último, a trilha não casa muito bem com algumas cenas, parecendo se tratar mais de uma aventura do que de um terror.

Como o veículo “Pop Horror” melhor definiu: A Lenda de Golem traz um Frankenstein judeu. A mesma receita que traz à vida um personagem muito poderoso, também traz a tona diversas questões muito bem exploradas no filme, não somente como uma obra do horror, mas também como um retrato de que o cinema estrangeiro merece maior destaque nos cinemas e em redes de streaming como um todo.

 

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