Uma mulher resolve parar. Sem sentir-se em falta com nada ou com ninguém, sem querer recortar-se do fluxo da vida. Simplesmente parar. Humana, poderia ainda comer, cantar, dançar… Mas quais seriam as consequências de viver a vida inteira decidida por essa “paragem”?

“A mulher que virou planta” é um solo performado por Bruna Trindade livremente inspirado no livro “A vida das plantas: uma metafísica da mistura”, do filósofo italiano Emanuele Coccia. A peça propõe uma experiência de imersão na radicalidade que é estar-no-mundo por meio desse “devir-planta”, premissa elaborada por Coccia e traduzida cenicamente por meio de uma profícua pesquisa realizada pela performer em parceria com o encenador Vitor Medeiros e a diretora artística Tatiana Motta Lima.

Em um tom onírico, que oscila entre a realidade e a fantasia, a filosofia e a poesia, o solo desenvolve-se por meio de partituras corporais que pretendem dilatar o tempo e aguçar a sensibilidade do espectador. Para construção de cada minucioso movimento, foi realizado um trabalho de preparação corporal com Renata Asato, buscando na técnica milenar do teatro Nô, e mais especificamente na “kata” – formas específicas de andar, sentar a manusear objetos – o apreço pelo detalhe com o máximo de expressão.

– Existe uma reflexão na peça sobre a concretude dos corpos e das coisas, de formas que atravessam o tempo, como aquelas árvores centenárias, milenares. Cada objeto que está em cena tem uma história e isso está, de alguma forma, inscrito na sua forma. Quando a gente olha para um objeto antigo, geralmente conseguimos perceber isso e até adivinhar de qual época ele “veio”. A nossa ideia é reunir essas diferentes temporalidades e jogar com elas – conta Vitor.

Em estreito diálogo com a estética minimalista desenvolvida na pesquisa, a trilha sonora original criada por Bianca Godoi se utiliza de sintetizadores para mesclar sons e ritmos atemporais. Para marcar a escolha pela artesania, a música criada originalmente para o espetáculo será prensada em um vinil exclusivo, que será manipulado em cena pela atriz. O figurino e os adereços, garimpados em feiras de antiguidades e nos armários de família, complementam essa imagética sutil.

Ao longo de toda a experiência, o público é convidado a partilhar da mesma sensação de suspensão em que se encontra a performer, sensação que se torna bastante concreta a medida em que o solo avança, convocando as pessoas ao redor a sintonizarem o mesmo estado de atenção, que oscila entre a calma meditativa e um frisson provocado pelo risco assumido por Bruna.

Assim, a encenação busca um modo de atuar que tem mais interesse sobre o trabalho acerca das (micro e macro) percepções, sensações e escuta, destituindo o corpo de um lugar identitário, a partir de sua capacidade de ser sensivelmente afetado, transformado, vencido, alterado, tal como seriam as plantas em sua vida íntima e desapercebida pelos humanos, segundo o filósofo italiano. A pesquisa atoral nasce em estreita conexão com a investigação realizada no grupo Hanimais Hestranhos, orientado e dirigido por Tatiana desde 2016 na UniRio e no qual Bruna é atriz pesquisadora.

– A Bruna entra num estado de percepção e sensibilidade muito específico e a gente quer propor ao público tentar acessar um pouco esse estado, que o público viva uma experiência ali dentro da sala e saia com perguntas, reflexões – afirma Vitor.

Como na vida, cada sopro, cada respiração pode afetar os acontecimentos. “A mulher que virou planta” nos instiga a pensar em como agir para ser semente de algo mais livre, menos ansioso, e mais ocioso.

– Queremos convidar o espectador para uma autopercepção, a aguçar um pouco a sensibilidade dessa pele que está em carne viva, que parece não sentir mais nada – finaliza Bruna.

SERVIÇO
“A mulher que virou planta”
Estreia 17 de agosto, sábado, às 20h30
Temporada: todos os domingos, às 20h, até 15/09
Local: Rampa – Lugar de Criação ( Rua Sá Ferreira, 202 – Copacabana – ao lado da saída do metrô)
Classificação: 16 anos
Duração: 60 minutos

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