“O Instagram é um mergulho no raso, ler um livro é um mergulho bem mais profundo. Tem uma diferença enorme entre passar versos na timeline e sentar para ler segurando páginas em suas mãos”. Foi assim que Allan Dias Castro, autor do livro “Voz ao Verbo” e de inúmeras poesias contadas em vídeo em sua conta no Instagram, definiu a experiência que ele e os colegas de palestra vivem todos os dias. Zack Magiezi está no mesmo barco, com mais de um milhão de seguidores na mesma rede social, compartilha trechos que eximem sentimento, e ainda mais em seus livros, sendo um deles “Estranherismo”. Já João Doederlein, mais conhecido como @akapoeta, o mais novo da mesa, também acumula seus mais de um milhão de fãs e seguidores na rede, além de um novo livro intitulado “O invisível aos olhos”. Os três autores e poetas debateram neste sábado (31) como a internet ajudou a popularizar o que antes era considerado um gênero elitista.

Para mediar a mesa, Pedro Pacífico, conhecido como @book.ster no Instagram, tomou a palavra a fim de guiar os colegas ao debate daquela manhã: como a internet ajuda ou atrapalha o trabalho do poeta contemporâneo. Allan explica que a rapidez da resposta é, no mínimo, diferente do que autores antigos viviam: “Nas redes a reação é instantânea. É “gostou” ou “não gostou” e as pessoas são bem vocais sobre isso nos comentários”. Enquanto Zack defende que tenta se alienar da resposta do público sobre cada projeto que compartilha, João explica que isso afeta os próximos posts “A internet mexe com a gente, isso é certo”.

A internet ao mesmo tempo que cobra, multiplica as possibilidades. Afinal, todos os presentes autores percorreram um caminho que tem se tornado cada vez mais comum através dos anos: começaram pelas redes sociais e quando atraíram atenção de pessoas, editoras também passaram a vigiá-los e ofereceram que essa criatividade se tornasse um livro físico, trazendo leitores que já conhecem o autor e os que estão passando pelas livrarias e querem conhecer. O que todos os três têm em comum é justamente essa vontade de expandir os públicos.

Allan explica essa convergência de autores do gênero na atualidade: “Meu objetivo é desmistificar, quebrar a barreira e mostrar que poesia tem engajamento, adaptando a linguagem”. Zack concorda e afirma rindo: “Fazemos isso falando da nossa época: das relações líquidas, gasosas e sólidas. Temos que provocar essa sensação de estar perto das pessoas. Às vezes eu leio e parece que escrevem sobre mim. Se há reflexo, há poesia”.

João também percebe a diferença entre a poesia clássica e o que praticam atualmente nas redes sociais: “A poesia sempre foi elitista. Quem podia escrever? Ricos. E quem poderia ter acesso aos livros? Outros ricos. Quando eu lia obras dessa época não parecia que me convidavam para ler. Eu não conseguia entender. Então quando eu comecei a escrever, não fazia sentido imitar algo que eu nunca fui, então eu fui escrevendo de forma simples. Poesia é para todo mundo, ou tem que ser para todo mundo. Eu escrevo o óbvio, porque o óbvio também precisa ser dito. A gente quer ser complexo e esquece que o simples também é bonito”.

Pedro traz para a mesa dados assustadores de 2016 acerca do consumo literário no país. Os brasileiros leem cerca de 2,4 livros por ano: “Ou seja, eles nem chegam a terminar o terceiro livro, e nisso entra nosso papel. Quando a gente estimula a leitura, estimula o leitor. Todo mundo ganha com uma livraria lotada”. Esse estímulo partiu de diferentes personalidades na vida de cada um, para Allan e João foram as mães, e para Zack foi uma escolha: “Era isso ou música, então enquanto minha irmã tocava piano, eu fui ler na biblioteca”. Pedro então levanta a questão que uniu todos ali “A internet preenche a lacuna de quem não teve referência ou estímulo dentro de casa”.

Para os que querem seguir a carreira, fica a dica de Zack Magiezi: “Não espere eternamente por inspiração, senta, escrever. Cobrança eu troco por motivação. Torne isso seu ofício. Alimente sua rede, crie estratégias para movimentar mesmo em épocas sem inspiração, postando textos mais antigos, por exemplo. Tente sempre coisas novas, novos formatos, isso sim é arte”.

Para finalizar os debates do Café Literário, quando os três foram perguntados sobre o que gostariam de escrever no futuro, a resposta foi unânime: muito mais do que poesia, mas sem nunca a abandonar. E João defende que o importante é nunca parar de ser autor, mas principalmente nunca parar de ser leitor. “Ler é um lugar, um ato sagrado que envolve o silêncio e os efeitos de um objeto pequeno e poderoso”. Em uma sala repleta de citações poéticas, foi impossível não sair contaminado pelo despertar à leitura.

 

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