O Brasil é o mesmo, os personagens não. Em um país tão grande, inúmeras histórias são vividas todos os dias e cabe ao jornalista distinguir o que é notícia do que é fato corriqueiro. Daniela Arbex, jornalista e autora dos livros “Holocausto brasileiro”, “Cova 312” e “Todo dia a mesma noite”, Chico Felitti, autor de “Ricardo e Vânia”, e Felipe Recondo, autor de “Os 11” e “Entre Tanques e Togas” possuem esse olhar treinado. No último domingo (01), o Café Literário foi palco de debate entre estes autores, com mediação de Mauro Ventura, autor de “O espetáculo mais triste da Terra”.

E a primeira pergunta da tarde, feita por Mauro, foi justamente acerca da escolha dos temas de seus livros “Dentre tantos Brasis, por que dedicar anos de apuração a essas histórias?”. Daniela diz que nem sempre é uma decisão que parte do lado do autor: “Nem sempre a gente escolhe o tema que quer contar, às vezes a gente é escolhido”. Ela conta como o radialista de sua cidade veio até ela com a história de uma enfermeira que estava de plantão na derradeira noite do desastre da Boate Kiss, tema do livro “Todo dia a mesma noite”, e ela sentiu que essas histórias, ainda ninguém havia escutado.

Chico, que conta a história do “Fofão da Augusta” em “Ricardo e Vânia”, parte do mesmo princípio, sente que a decisão de contar a história partiu de um interesse acumulado por anos: “A história do Ricardo é a minha história. Os paulistas se misturam a ele. Ele fazia parte do ritmo da cidade”. Ele conta que em seu primeiro dia em São Paulo, quando ainda estava na faculdade, se deparou com aquela figura enigmática pedindo esmola próximo ao bar em que se reunia com seus amigos. A história dessa pessoa o intrigou por treze anos, até ter a oportunidade de entrevista-lo e desvendar os mistérios que o rondavam.

Por outro lado, Felipe afirma o contrário, ele sabe que foi uma escolha própria contar a história dos ministros do STF em seus dois livros: “Pode ter sido acidente ter parado lá no STF para trabalhar, mas assim que eu pisei naquele lugar eu quis escrever sobre tudo que eu via e ouvia”. A história é inédita. Nunca tinha havido alguém com a coragem – ou audácia – de dizer o que aqueles personagens, televisionados todos os dias, uniformizados em togas, mas tão distintos em personalidades, viviam diariamente durante as operações do Mensalão e da Lava-jato.

A grande dificuldade de um livro-reportagem está nos sacrifícios pessoais de cada autor em ouvir e relatar com exatidão as histórias. Daniela conta como foi doloroso e difícil de digerir os dois anos em que ficou apurando o material e ouvindo os depoimentos das famílias que perderam seus filhos em uma noite. Já Chico conta como foi, por um ano, fazendo no escuro, descobrindo a história que nem mesmo seu personagem queria lembrar, e como foi encontrar a segunda personagem da história, Vânia, que foi o grande amor da vida de Ricardo. E para Felipe foi interessante vivenciar por tantos anos o STF até o momento em que os ministros “descobriram” que ele iria transformar aquilo em um livro e passaram a tentar mudar sua postura perto dele, apesar de ele já ter diferenciado as figuras públicas das privadas.

Esse tratamento diferenciado não parte só dos personagens. Os depoimentos que escutam ficam pela eternidade com os autores. Daniela conta que precisou de terapia após redigir os três livros-reportagem em sequência, e especialmente o mais recente: “Eu me peguei vivendo um luto que não era meu, e isso afetou minha rotina familiar. Mas eu sinto que valeu a pena, porque meu sofrimento não é nada em comparação a dor permanente das mães, em um lugar em que a cidade quer esquecer, mas as famílias tem que se lembrar do evento trágico, acho que meu livro trouxe compreensão e ajuda para ambos os lado. A tragédia deixou de ser “do Sul” e passou a ser “nacional”.

Chico conta ter vivenciado o mesmo com a perda do Ricardo “O hospital ligou primeiro para mim às 2h da manhã, eram duas semanas depois do lançamento e eu tive que avisar a família. Essa é uma dor que contamina. Já a Vânia se tornou amiga da família, nós ficamos perto por causa de um aspecto triste, mas que acabou se tornando um laço valioso, mas foi uma grande catarse, a cidade de Araraquara, de onde ele era, fez as pazes com ele”.

Já Felipe diz que não houve grandes reações ao seu livro, só tentativas de se afastar “Eu me distanciei mais daquelas figuras, mas porque ninguém queria ser meu amigo (risos). São 128 anos de história, mas não há grandes novidades do que está acontecendo hoje do que ocorreu em governos anteriores. O mantra de serem “onze estados diferentes” é um manto que esconde quem são de verdade, mas a esperança é que essas onze pessoas voltem a ser uma só instituição”.

“Um desafio e um privilégio”, é assim que os três definem as experiências de redigir um livro-reportagem com temas tão distintos, mas que se unem em um só objetivo: mostrar mais do que se escuta em uma rápida chamada, ou o que se lê rapidamente na manchete de um jornal. A profundidade poética de mergulhar de cabeça em histórias humanas faz perceber o que por vezes esquecemos: que somos ilhas de um só arquipélago.

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