A viagem da literatura pode começar com as páginas de um livro, afinal esse é o caminho usual, mas e quando a viagem se estende até o palco, as telonas de cinema ou telinhas de aparelhos domésticos e celulares? O bate-papo deste sábado (07) no Café Literário foi com três escritores que tiveram suas obras incluídas na famosa cultura de convergência, em que um meio converge para tantos outros. Foi o caso de Edney Silvestre (autor de livros como “Se eu fechar os olhos agora”, que foi adaptado para uma mini-sérieda Rede Globo), Artur Xexéo (autor da biografia de Hebe Camargo que virou musical no teatro) e Marc Levy (autor de “E se fosse verdade”, livro que se tornou clássico da sessão da tarde com Mark Ruffalo e Reese Whiterspoon). A mediação ficou por conta de Simone Magno, jornalista e também autora.

Para criar histórias tão diversas, é necessário inspiração. Quando perguntado o que o fez querer escrever sobre a temática biográfica Xexéo conta que não é bem “inspiração” o que ele chamaria: “95% da obra foi criada porque foi encomendada, mas 5% foi curiosidade própria”. Já Edney diz saber que a inspiração vem de algo mais profunda “Eu acho extremamente necessário escrever”. Porém para Marc, a inspiração é bem mais poética: “Vem dos detalhes da vida. A vida tem mais imaginação que qualquer autor junto”.

Acerca da mudança da linguagem que ocorre ao transcrever uma obra literária e traduzi-la para o roteiro cinematográfico ou teatral, Xexéo explica que o leitor valoriza uma pesquisa profunda, mas o espectador nem tanto: “Quando a obra vai para o teatro, não se pode ser detalhista. Não há tempo para isso. O livro é para se ler com calma, a peça tem que ser assistida em duas horas. Fora que o teatro não é o que você escreve, o texto teatral começa a se escrever quando o diretor coloca suas observações, e o ator interpreta seu papel”. 

Além de ter sua própria obra recriada em musical, Xexéo também trabalha com a adaptação de obras de terceiros para o musical e já trabalhou ao lado do diretor Miguel Falabela: “Foi muito divertido trabalhar ao lado do Falabela. A gente tem que mergulhar no que o outro fez mesmo. As músicas em inglês serem adaptadas para o português é um caso a parte. Não precisa ser muito literal a tradução, mas às vezes é exatamente o contrário”. Ediney também contou sobre seu trabalho ao lado do diretor Ricardo Linhares: “Eu lembro que sublinhei para o Ricardo a expressão ‘cidade de amores tristes’ e ele entendeu completamente o que eu quis dizer com aquilo. Foi muito fácil trabalhar com ele”. 

Quando perguntados sobre quanto de um jornalista forma um escritor, Edney foi sincero “Eu trabalho com a notícia no jornalismo, mas eu uso a notícia nas obras. A notícia transforma nossas vidas pessoais, e os acontecimentos decidem a sua vida e dos seus descentes. Esse é sempre o pano de fundo dos meus livros, sempre tem um contexto histórico”. 

Falando em atualidades, nesse momento, a mesa tomou um importante viés. O recente polêmico vídeo do atual prefeito Marcelo Crivella repudiando a venda de uma obra com personagens LGBTQI+ tornou-se pauta no debate. Edney já havia começado o debate desejando o fim da censura, o não a ditadura e ainda pediu uma salva de palmas ao influenciado Felipe Neto, que após saber a decisão do prefeito do Rio de Janeiro, adquiriu 14 mil cópias de livros de diferentes editoras e autores com a temática para distribuir gratuitamente pela Bienal. 

Xexéo falou sobre a expectativa da efervescência literária apesar dos pesares: “Por mais pessimistas e assustados pela censura do HQ que tenhamos ficado, houve uma resposta rápida e positiva da Bienal e da Justiça a favor da liberação da venda e compra livre A arte salva”. Edney relembrou uma frase de Fernanda Montenegro ‘O Brasil dá certo. A arte do brasil dá certo’, e ainda complementou com uam de Eduardo Campos ‘Não podemos desistir do Brasil’”. Marc Levy que contribuiu para o debate com sua própria experiência ao ver a ascensão de Donald Trump na época em que morava em Nova York compartilhou que “O lado sombrio sempre ameaçará a liberdade. Se as pessoas não lutarem todos os dias, não funciona. A resistência depende do poder do povo e de nós: leitores e escritores lutando contra a discriminação. Livros como ‘O conto de Aia’ da Margaret Atwood nos unem. 

Marc Levy resumiu com este depoimento, a energia de um sábado lotado da Bienal 2019: o fenômeno da resistência unindo leitores e escritores a mudar o mundo por meio de conversas, debates e palavras. 

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