Em uma jornada épica de RPG, quem ganha: os elfos de “Tormenta”, as serpentes de “Serpentuário”, ou os vampiros de “Penumbra”? Foi com essa pergunta que iniciou uma aventura fantástica no último domingo (08) na XIX Bienal do Livro do Rio de Janeiro, o último dia de evento. Os jogadores dessa mesa de debates foram Andre Vianco, autor de “Os Sete”, “Penumbra, entre outros, Felipe Castilho, autor de “Serpentuário”, “Terra Morta – A metade de meia-dúzia”, e outros títulos, e Karen Soarelle, autora de “A joia da alma” e outros títulos que se passam no universo de “Tormenta” o RPG brasileiro de maior sucesso. Eduardo Spohr deveria ser o quarto jogador da mesa, porém por questões médicas, teve que se ausentar da partida. A conversa foi mediada por Guilherme Dei Svaldi que trouxe de forma precisa a conversa para a linguagem, narrativas e público da literatura divertida e provocante da fantasia.

Quando a batalha fora anunciada por Guilherme envolvendo os principais personagens das obras de cada autor, não havia certeza de quem ganharia, mas Karen anunciou que sabia com certeza quem perderia “os elfos de Tormenta perdem”, disse entre risos. O clima absolutamente divertido da conversa mudou de tom quando o mediador tratou de uma questão importante, a diferença entre livros paradidáticos e os dos autores diante deles. Por que uns afastam as crianças e jovens e outros aproximam?

Karen foi a primeira a revelar que a diferença básica se constituía no gênero contemporâneo das tramas: “Nossos livros tem temas da atualidade, mas uma coisa é certa: ao descobrirem a paixão pela literatura através da fantasia, isso é porta de entrada para descobrirem e se apaixonarem por textos e livros ‘mais difíceis’. E essa é a função dos nossos livros entreter e também formar leitores”. Já André declarou que vê semelhanças entre os dois tipos de livros, pelo menos, os dele: “Eu tenho um pé no clássico e um no contemporâneo. Por eu escrever terror muita gente acha que minha inspiração tinha que ser o Stephen King, quando na verdade eu me inspiro no Victor Hugo e no Henry James, autores clássicos. O importante é que o leitor fique comigo da primeira até a última página”.

Felipe concorda com ambos os colegas e traz um importante tema para a mesa “Nossa função é formar leitores tanto quanto os livros paradidáticos, mas o que alguns governantes estão fazendo é tentando criar uma bolha, mas somos muitos [leitores] e estamos espalhados por aí e o que a Bienal consegue fazer é unir a gente em um só lugar. Onde erramos foi que por muito tempo a gente usou o clássico como penitência, tipo ‘Fulaninho, você não fez aquilo então senta e lê 20 páginas de Dom Casmurro’ e isso manchou a imagem dos clássicos pra alguns”.

Karen lembra que essa diferenciação entre livros contemporâneos e clássicos os rotulou como entretenimento: “Eles falavam que a literatura comercial só serve pra mover o mercado, quando na verdade ela faz isso e também provoca conversas importantíssimas”. Felipe relembra a importância desses debates sobre temáticas fantásticas como a deles “Essa porta de entrada que a Karen citou tem que ser uma porta ampla e que não machuque na entrada, assim a leitura é realmente incentivada”, e Karen ainda complementa a resposta do colega com mais: “Não somos só porta de entrada, nossos livros são sobre medos e fantasia e sobre seres humanos. Tem que ser analisado além do superficial. Por exemplo, eu tenho nos meus livros uma parte em que eu falo sobre as elfas presas a minotauros e ali eu tô querendo falar na verdade sobre relacionamentos abusivos. Tem que se ter esse olhar mais profundo sobre as obras”.

O uso de suas obras para debater temas difíceis é o que torna a leitura uma experiência única. Andre fala sobre o poder dos livros: “Podem pôr a etiqueta que quiserem, nossa literatura não é menor. Às vezes o livro se torna um oásis para o leitor, ele não é alienante, não faz o leitor se desconectar do real, mas sim escapar e isso não é ruim. Os debates importantes ficam na mente de leitor. O que a gente cria é um lugar para as pessoas se reenergizarem para enfrentar o real. A transgressão é importante. Escrever é algo fascinante, é mágico.” Guilherme finaliza com um resumo do pensamento acompanhado por palmas: “Literatura é diálogo”.

Andre ainda contou sobre a descrença inicial que teve que enfrentar na época em que lançou seu primeiro livro (há quase 20 anos atrás), em que as editoras diziam que “brasileiros não iriam gostar de ler histórias ambientadas no Brasil”, mas quando ele resolveu publicar o livro mesmo sem editora e ofereceu aos livreiros, todos adoraram se encontrar no meio das páginas. Felipe ainda conta uma frase que um grande filósofo disse “Conta sua aldeia. Escreva, mas escreva sobre aqui”. E Karen complementou “O Brasil não é uma extensão territorial, o brasil somos nós, e nossas obras sempre vão ter influência do que gostamos, mas somos uma mistura e isso mostra nossa cara”.

E é exatamente essa mistura de universos em que cada um ambienta suas histórias. Felipe escolheu criar o seu próprio “Eu fiz o playground para quem quiser ir brincar”, já Karen criou o universo a partir dos livro-jogos de Tormenta, o RPG brasileiro. Também Andre criou seu universo, mas o que todos tem em comum é que se ambientam no Brasil.

Com o local definido e exaltado, Andre diz que a dificuldade se torna encantar o leitor e mantê-lo na obra “Isso é complicado por causa da atenção fragmentada de hoje em dia, a gente tá lendo mas tá preocupado com celular e outras coisas. Você tem que ser mortal na disputa por atenção”. Ele ainda complementa com uma mudança dos tempos atuais: “Eu nem chama mais leitor de ‘leitor’, prefiro ‘receptor’ porque ele pode estar lendo em qualquer lugar, mas é assim, se a literatura emociona e cria fruição, está certa, e é livre. No audiovisual você entrega o mundo pronto, não tem muito para a imaginação. Já na literatura eu entrego os pedaços e o leitor é quem constrói algo incrível”.

Para encerrar a mesa, dois fatos curiosos fizeram deste encontro inesquecível. O primeiro foi o mediador Guilherme criar uma aventura rápida de RPG para os autores: “Vocês estão em uma caravana protegendo o mais importante dos tesouros: livros! E então chega uma horda de criaturas. Vamos chamar de ‘fiscalitos’. Eles tentam pegar o seu carregamento; O que vocês fazem?”, entre os risos e aplausos da plateia, Andre disse ser um vampiro de Osasco e tentaria intimidá-los “Vai encarar?”, enquanto isso Felipe, em sua forma serpente se esconderia entre os livros para dar o bote caso os dois amigos falhassem na linha de frente.

Já Karen, com uma personagem élfica deusa da sabedoria matou a questão “Eu daria na mão deles para eles lerem”. A resposta foi seguida de um forte grito “Censura não!”, e após responderem algumas perguntas do público sobre como é ser mulher em um meio dominado por homens, que Karen contou ter ido “com o pé na porta” e assim foi muito bem recebida, Andre respondeu uma pergunta sobre como foi escrever para crianças depois de escrever terror para adultos por tanto tempo, que respondeu de forma primorosa “Nós somos movidos por paixão e inspiração e eu escrevi para três gerações e quis escrever para os filhos dos pais que leram meus livros. Eu tive que me reconectar ao meu eu criança”. Depois disso, veio o segundo momento curioso. Todos ao autores responderam uma pergunta de uma fã sobre como imaginam o futuro da literatura no Brasil, visto o que aconteceu nos últimos dias. Andre fez uma promessa: “Vamos continuar escrevendo todos os dias. Pra vocês e pra nós. Criar esse oásis e esses lugares para que estejam amparados por nossa imaginação. Eu não vou mudar o que eu escrevo por causa do prefeito. Eu quero continuar a imaginar. Eu preciso despejar o que eu estou pensando. Que bom que vocês estão aí pra nos escutar e que tem lugares para nos esparramarmos (internet). Não importa o que acontece hoje, vamos escrever amanhã”.

Já Karen afirmou uma nova promessa, uma de união: “Estão tentando pisar em nós e vão conseguir se não fizermos algo sobre isso. E não podemos deixar isso acontecer”. Enquanto Felipe resumiu tudo o que tantos pensaram: “Minha mãe me falou “como faz barulho a carroça vazia”. O governo é isso, eles não têm nada, são nada. Nós como produtores de conteúdo precisamos lembrar que mais que tenhamos o bombardeio de notícias, a gente precisa mostrar e lembrar que não está tudo tão terrível assim. Olha a gente aqui. Isso é lindo. Nossas armas são os livros e vamos lutar”. E assim ficou definido o fim da palestra e o fim da XIX edição da Bienal do livro 2019: uma edição recheada de histórias inesquecíveis, assim como o próprio enredo desse evento e sua relação com o contexto atual. #CensuraNão

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